11 de outubro de 2014

Ária para meu verso






Não sei de onde vem o verso
Se da ponta da língua, no amargor
Das construções do eu interior
Cor local, meu som, meu universo

É seta cruzando o céu, no vão da boca
Linguagem gestual riscando a palma
O canto sem cantor que lava a alma
Tantas vezes sem pudor, palavra louca

Pulsar de um coração cheio de espanto
Que trago em minha mão como um cristal
O verso me marcou na sina, seu sinal
Na pele me cobriu de luz, seu manto

No cerne da palavra, fonte e vertente
Por onde me levou flor boiando em rio
Semente a germinar, terra no cio
Imagem em esplendor dentro da mente

No ardor da escrita acendo a chama
Espada da poesia, a mão erguida
Me fere com prazer dor desconhecida
Arranha a minha mão e ainda reclama

Não nasce explícita, palavra crua
E não revela a sua face no espelho
É segredo, sussurro, falso conselho
Que ao se revelar me torna nua



Sandra Fonseca



In: Dez Violinos Marinhos e Uma Guitarra de Sal - 2014

14 de setembro de 2014

9 de julho de 2014

POESIA LÍQUIDA


Meu verso
Rompe veias, barreiras
Rio sem freios
Que me carrega
Sangra num fio
De água doce

Sangria louca
Que não se estanca
Palavra-lava
Que se derrama
Sem derradeiro
Ponto final

Meu verso
É vício
Ferida, carne viva
Renda e filigrana
É remendo às pressas
Veneno, promessa
Desengano

É mel na boca
Sorrindo, a louca
Sonhando a lua
Correndo nua
Desaba inteira
Feito tempestade
Sobre a cidade
Meu coração

Meu verso
É lenda, profanação
De almas e sonhos
A fina dama, tonta
Obscena
Úmida, lânguida
Poesia líquida




Sandra Fonseca

23 de março de 2014

LUA E SOL



Bastaria
Eu vestida de lua
E o teu ideal de ser sol
Sobre esses dias de frio
O tempo alucinado
Como animal sem doma
Sobre a delicadeza
Desse sonho
Sonhos
Enovelando o destino
Desatinos entre
Dois mundos
Bastaria
A breve pausa
Entre duas cenas
Tão reais


Meus olhos
Cerram-se nos teus
Num brevíssimo
Bater de asas
Nesta noite
Que passa como
Uma névoa.


Sandra Fonseca




11 de novembro de 2013




A CASA DO SENHOR DAS ÁGUAS


Não apresso a despedida
Não apresso o rio
Cultivo esse nó
Que se desata, eterno
E lento.

Lentamente cavalgando as luas
Delírio de astronauta
Coisas, gestos mínimos
Canto da boca
De onde recolho gota a gota
O sumo, a essência
Isso que não é lunar
E por ser movediço
E denso
Também não é terreno.

É onda
Quando se levanta
Arrebatando voraz
A fauna
A flora
A vida marinha
E se arrebenta praia
E se aquieta
Do seu próprio furor
Se se alimenta
Argonauta.

Domínios do mar
Onde resido
Onde a maresia
Chicoteia o vento
E lambe meus pés de areia
Passageiros.

Isso de que falo
Me arrebata
Avassala.
Se estende desmedido
Entre os mapas
Das  omoplatas
E faz do ventre
Um ninho de gaivotas
Isso de que falo
É marulhoso, infinito
Tenso.
E eu não desejo
Escapar da sua casa
Senhor das águas
Mar esplêndido.


Sandra Fonseca

3 de julho de 2013

MEMORÁVEL





Pousou sobre
As suas coxas
Era um frêmito
Um alvoroço de plumas
Penugens
Pelos

A boca sabia
A sal
A pele roçava nua
Abriu-se dócil
A intenção do ato
O que a língua fala
E o desejo
Compactua

Ligeiros
Ágeis espasmos
Estertores
De prata e espuma
A noite testemunhava
Plácida bruma
A cena memorável:
Um pássaro pousado
No ventre da lua.


Sandra Fonseca

3 de junho de 2013


INCOMPLETUDE



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  Mãos de navalha
Eu vou
Cortando rumos
Cortando a noite
Em luas,
Eu vou a esmo

Por dentro
Dos vendavais
Dos sonhos
Enraizada ao medo
Mulher de carne
E bruma
Mal disfarçada, nua
Eu vou

Atada ao dorso
Desse corcel
Feito de fogo
E asas,
Por sobre o oceano
Inteiro
Por sobre as casas
Eu vou
Ao léu

Abrindo
Terras estranhas
De fendas, mágoas
Tamanhas
De mim,
Estrangeira
Levando
Dentro do peito
Um coração voraz
O filho bastardo
De um sonho
Incontinente
Fugaz

Devorador de ilusões

Eu vou me repartindo
Ao meio
Sou parte
Cheia de espanto
E outra parte
Desejo
Eu vou...



Sandra Fonseca

14 de abril de 2013

COLADA À TUA LUZ




Como se fosses morrer
Me calo em sua boca
Sôfrega, te respiro
Vida
E te desenhas
Rictus, sorrisos
Nas maças do meu rosto
Vasculho de novo
Sôfrega, repito
Teu fundo poço
O lamaçal, o fosso
Onde me guardas
Das palavras
Colada a tua luz
Sou frágil
Inseto, transparente
Quase abjecta.
Insisto
Persigo os teus desertos
Faço do teu dorso
O meu atalho incerto
E atravesso a noite
Deslumbrada de medo.
A noite eterna e um sonho
meu precioso diamante
Colada à luz do dia
Espero amanhecer.



Sandra Fonseca



17 de fevereiro de 2013

Fogo e água



Tudo se envolve em chamas, tudo arde
Até o leito do rio aonde, náufraga,
Mergulho em estupor a minha saga
E vou me afogando sem alarde.

Num desatino, a alma em desalinho
O amor se move a esmo, pede um braço,
O ninho caloroso de um abraço
Envolto em línguas de águas e de linho.

Eterna ardência a sede dos teus mares
Eu sonho grandes asas sobre os ares
Imenso céu que sabe o mundo inteiro.

Teu corpo é quilha, casco de um navio
Saltando as emoções do mar bravio,
É fogo sobre água, barco, marinheiro

30 de julho de 2012

FLORES DE INVERNO


Para Tetê

 




São flores de inverno

Que te entrego

Ainda.

Não consegui até

Hoje reinventar

O sol e nem

Um canto de um

Beija-flor cor-de-sol.

Mas essas flores  de inverno

As construí pétala

Por pétala

Geradas das sementes

Que plantamos

Na seara

De milhares de dias postos.

Morreram tantas vezes

Morremos tanto.

Mas no milagre do tempo

Que cicatriza as dores

E levanta os dias sempre

E de novo

Feito uma eterna promessa

Da vida

Essas flores de inverno

Que inventei

Germinaram

Como pequenas e inenarráveis

Promessas

Palavras de sol

Que hão de fazer

Brilhar tanto

As páginas da vida.



Com amor,

Naninha.

30/07/12