29 de fevereiro de 2008

Cartas à noite

O espaço cavado em breu
Da melancolia,
A vida envolta em nebulosas,
E os astros ferozes no encalço.
Altos em sua escalada nos céus,
Velozes.
Aperto sob a mão,.
Discreta , essa dor no peito.
Nem é desenho de ferida,
Nem exala à mel
O sangue das estrelas.
Apenas arde,
Denuncia ao longe
Querer que nunca acabe,
Fogueira.

Demasiado tarde,
Arrumar o caos,
Iluminar o labirinto
Como se bastasse a luz
Que salta em golfadas
Na respiração da palavra.

Aqui me detive,
Nesse êxtase e aflição.
Eu sinto o cheiro que exala da madeira
Quando a faca mais lhe crava,
A carne.
E tanto mais brilha
O olho da paixão,
Na tez azulada
Da noite alta.
Abraço a escuridão
Nas brancas pontas dos dedos.

Cortamos pelo meio as dores,
Atravessamos as noites,
Nas luas viúvas de sóis postos.
Impossível encontro.
E no entanto,
O gosto esperado no canto
Da boca secreta,
Promessa,
E da mão entreaberta
A ternura lavra seu caminho,
Sem pressa.

18 de fevereiro de 2008

Palavra sem pudor, palavra bruta














Palavra sem pudor, palavra bruta

A pura flor que nasce da ternura

Feridas do amor na carnadura

Na alma, o estertor da sua luta.


Da vida e o seu furor maior mistério

Eu sinto o marulhar do som, o peso,

Farol em alto mar, imenso, aceso

E a boca de sentir no sal, minério.


E sempre hei de sentir no ar o fel

Se a dança das estrelas risca o céu,

Adoço o sal do mar na minha boca.



E a língua da saudade mais se apura

Assanha um mal de amor que não tem cura

Senão em seu calor palavra louca.

15 de fevereiro de 2008

A solidão das mulheres poetas



Eu
Faço versos
Como quem ora,
Desfiando o tempo
Esse infinito terço,
Entre os cinco dedos
Dessa minha mão.
Como essas notas
Que eu ofereço,
Pequenas contas
De uma emoção.

Eu
Faço versos
Como quem chora
O pranto eterno
Mãe da noite escura,
Que perde o filho
Quando rompe o dia,
E em desespero
Vê chegar a aurora.

Eu
Faço versos
Como quem mora
No leito triste
De uma câmara fria,
Compondo um tecido,
Versos de agonia,
Neste curto espaço
Onde só cabe agora,
O aço,
A lâmina dura
Que em mim demora.

Dor que me carrega
Madrugada afora,
Numa viagem cega
Mal que não tem cura...


Inspirado em "Desalento" de Manuel Bandeira।


14 de fevereiro de 2008

Numa palavra





A alma,
Invisível, se revela,
Quando alinho-a
Paralela,
Aos contornos do sagrado.
Se esvazio-me das dores,
Desamores, querelas.
Se, num breve átimo,
Espasmo de tempo,
Pronuncio leve,
A palavra.
Folha sem destino
Ao vento, primavera.
Primeira estrela sem promessa,
Sem norte,
Na sorte de arriscá-la,
Etérea.
Fugaz como um pensamento,
Sem temor,
Perdê-la!