6 de fevereiro de 2009

A CASA DO SENHOR DAS ÁGUAS



Não apresso a despedida,

Não apresso o rio,

Cultivo esse nó

Que se desata, eterno,

Lento.

Lentamente cavalgando as luas

Delírio de astronauta.

Coisas, gestos mínimos,

Canto da boca,

De onde recolho gota- a- gota

O sumo, a essência.

Isso que não é lunar

E por ser movediço

E denso,

Também não é terreno.

É onda

Quando se alevanta

Arrebatando voraz

A fauna,

A flora,

A vida marinha,

E se arrebenta praia

E se aquieta

Do seu próprio furor

Se se alimenta,

Argonauta.

Domínios do mar,

Onde resido.

Onde a maresia

Chicoteia o vento

E lambe meus pés de areia,

Passageiros.

Isso de que falo

Me arrebata,

Avassala.

Se estende desmedido

Entre os mapas,

As omoplatas,

E faz do ventre

Um ninho de gaivotas.

Isso de que falo

É marulhoso, infinito,

Tenso.

E eu não desejo

Escapar da sua casa

Senhor das águas,

Mar esplêndido



Sandra Fonseca

O ABRAÇO DA NOITE



A noite é um negro olhar e se avizinha

Perscruta com prazer minha agonia

Perdeu seu toque azul, a fantasia

Apressa-se em saber que estou sozinha


Furtiva, sem que eu saiba, me enlaça,

Seus braços como aço em meu redor

Derrama em minha boca a sua dor

A noite é caçadora e eu sou a caça


Eu fujo, piso estrelas, distraída

Quero sair de onde não há saída

E o frio corta os ares como espada


A minha alma se enche de esperança

Eu guardo com ternura uma lembrança

De um sol dourado em plena madrugada


Sandra Fonseca

1 de fevereiro de 2009

GÓTICA



Se a faca

De repente se cravasse toda

Estremecendo a carne

Num estertor de ave

Abatida em vôo.

Se a vida não fosse

Essa flor ferida,

Pressupondo dor,

Fadiga,

Ardor de língua.

Um tempo inócuo

Se desenharia

No meu olho.

Um tempo cínico,

De desejos brancos.

Mas,

Eu não mais seria

Andarilha madrugada.

As pernas medidas

Em coturnos

E o vestido negro

Arrastando tules.

Gótica,

Plúmblea,

Imitando a vida.

Se ela não fosse

Descarada e ávida,

Fêmea,

Faminta,

Eu não acharia a graça,

Absurda,

Mítica,

A palavra estranha,

O grito possante,

Pulsante,

Poesia ।



Sandra Fonseca




BLOG DE OURO



Obrigada à Conceição Bernadino (http://amanhecer-palavrasousadas.blogspot.com/) E Magda (http://stoneartportugal.blogspot.com/) por esse prêmio.Prêmio de mulher para mulher que repasso aos seguintes blogues:


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