28 de abril de 2008

Bebi a lua



Bebi a lua

Entornada em pranto líquido,

Em filetes grossos

De prata.

Lívida era

A minha face,

E o vento acariciava

Os meus cabelos

De repente,

Transformados

Em hastes

Ferindo pontas de dedos.

Viajei na madrugada

Libertei fantasmas,

E encontrei

A magia das mandrágoras,

E quando cortei

As dores pela raiz,

Mais alto elas choraram.

Jogada em leitos

De rios de quimeras,

Sou afluente de tudo,

E me encontro,

Se devoro as flores

Antes dos frutos,

Se sou ave,

E aspiro o pólen,

E sorvo o néctar,

E de gritos

Eu preencho

Os meus ouvidos internos,

E nas línguas de fogo

Do lirismo,

Eu me queimo.

27 de abril de 2008

SÓ MEU, ETERNO


Eu tinha um coração

Que era puro fogo

Amo a solidão,

O fundo poço

Onde tateio

Teu braço, uma perna

Um lábio morno,

A sussurrar palavras

De um verso indecoroso,

Lascivo, louco.

Sonhei encontro

No que foi saudade.

O que sou sem ti

Senão o falso,

O pseudônimo,

A invenção do verbo,

Secreto gesto,

Inominável na sua boca.

E o que era eu

Senão reflexo

De um teu qualquer desejo,

Se habitei hangares

Onde habita a lua

E a nudez patética

De algum sonho.

E ainda hei de habitar

Nalgum cenário,

Clareiras que abrirei

Entre o alto mar e o meu deserto,

Melhor que seja assim,

No único modo de ser

Só meu,

Eterno.

Sandra Fonseca

20 de abril de 2008

Tambores



Se ainda há
O milagre dos tambores
E ressuscitam os mitos
Das florestas
E as almas antigas
E despertam os homens milenares
Na festa dos sentidos.

Se ainda há
O toque febril dos dedos
Na pele dos tambores,
A canção dos desejos
Mais ínfimos.
E os segredos
Correm dispersos
No rio dos ventos.

Se ainda há
Música
Em fragmentos,
No galope furioso
Dos tambores,
E as almas sem rumo
Sem etnias,
Sem encontram
Na dança do acasalamento.

Se ainda há
A magia dos tambores
Enredando
O encontro dos amantes,
No apogeu de um bolero
Alucinante.
Se ainda há canção
No ritual dos prazeres,
Nos gemidos
Na escuridão,
E os corpos já não são corpos
Em união,
Em sua convulsão,
Já são tambores!

Sandra Fonseca

Do desejo




"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto ..." Olavo Bilac



É da incerteza
Que surge
A minha busca.

De um canto qualquer
Surge o riso,

E o encanto.

De um nada qualquer

Sobrevivo.

Refaço-me de versos

Aprumo o meu barco

No rumo do universo,

Fujo à deriva
Num mar de sargaços.

Eu anuncio o dia,
Quebro as amarras

E solto os lastros da poesia,

Eu me invento.
Sou pensamento
E sou traço
Rabiscados nos muros.
Não mais me escondo
Atrás das mãos
Sobre os olhos,

E dos ouvidos moucos,
Eu grito.

É tão pouco

E fugaz

O momento,

Mas meu desejo
É imenso,
Denso,
Rebordado de estrelas,

Tantas quantas eu possa

Bebê-las.
E da janela
De onde as ouço,
Eu pinto na aquarela

Das manhãs,
Um breve rosto




Sandra Fonseca



18 de abril de 2008

O cio da lua



A lua

Estranha e cheia

Esfera de prata,

Entre os astros dispersos

Guardiã fiel

Dos desejos inconfessos

Da humanidade.

Olhar imenso

Sobre as dores

As iniqüidades todas

Do universo

Engendra em seu ventre

As canções que embalam

A ciranda das estrelas.

A lua

Histérica fascinação

Em sua face

Esférica

Cria uma falsa impressão,

É que colada

Na boca da noite,

Corcel de fogo

E asas,

Risca o céu,

Desvirginando

As madrugadas...

15 de abril de 2008

Mulher de papel e luz da lua



Eu amo
Aquelas palavras
Que arranham
E de leve é que se dão
A entender.
As palavras rudes,
Brutas porções de diamante
Nas mãos de algum poeta.
A saber,
Senhor de algum segredo meu,
Fulgor no rosto,
Como o beijo que deixa cicatriz.


Eu busco as palavras
Que se desenham
Na madeira
Que logo ardem
Nos sons de um novo poema.
As palavras que se derramam
Como vinho
Na folha em branco,
Como sangue
No relevo das veias.

Eu quero as palavras
Que supõem saber de mim
E me adivinham:
Lua, mar, asas, voar
E diz de mim,
Mulher de papel
E luz da lua,
E sabe mais...









13 de abril de 2008

Nas asas de algum sonho



De tanto desejar voar um dia,

Nas asas de algum sonho eu me perdi

E nunca de outro jeito eu me entendi

Senão envolta em sonho, em fantasia


Construo os meus castelos de quimeras

Invento mil maneiras de sonhar

Libertos como aves pelo ar

Anunciando o devir das primaveras



Se a vida nos afronta feito fera,

Se o tempo no galope não me espera,

Num sonho eu adoço o céu da boca



Me leva como folha solta ao vento

Voando como leve pensamento

Que a vida é das quimeras, a mais louca.

10 de abril de 2008

Memórias de uma sereia


Guardo lembranças
De peixes
E de floras marinhas,
E de respirar
Nessas estranhas narinas,
Aprendi as notas altas
Que brotam do peito
Em suspiros.

Penso em gritos
Estranhos cantos,
E eles soam mantras,
Repetições de um lamento
Num pungente e tristíssimo
Cântico de sereia.

De cabelos longos,
Madeixas roxas,
Como as teias,
Do amor, do encanto
Que desgraça
Os marinheiros.
As mãos em concha
Guardavam os segredos
E os medos dos homens
.
Um corpo de fábulas
Líricas, em duas mãos
Tocando a harpa,
E na ânsia de transformar
As dores em flores subaquáticas,
Esponjas, algas,
Anêmonas,
Estrelas-do-mar.

É de um côncavo
Profundo,
No interior,
No fundo,
Essa mulher
De olhos ausentes
Para o mundo,
De escamas transparentes
Recobrindo a cauda
Sinuosa de serpente.

Esse ser
Que habita
De beleza
E de lembranças
O meu oceano interior.

9 de abril de 2008

Papel de seda



Embrulhei anjos,
Plumas,
Palavras em papel de seda.
Embrulhei asas de sonhar desperta
As janelas que dão
Para as ruas desertas
Que nem pisei.

Sonhos, sonhos,
Sonhei
Anjos, velas, aves
Tomaram-se de mim
Urgentes e leves,
Reviraram escombros
Por dentro,
A casa, a alma
De onde me ausentei.

Escrevi bilhetes
Numa folha em branco,
Sussurrei,
Gritei nomes,
Recitei versos,
Calei-me.

Embrulhei algas
Corais, pedras de sal
Caídas como promessas
Dos meus olhos rasos.
Embrulhei as palavras
Em papel de seda.
Cheiravam a jasmim,
A nunca mais...

6 de abril de 2008

Soneto à lua



Por que me tens assim, a alma presa

Na luz, nesse fulgor imperecível

Teu olho, a minha dor, a chama acesa,

A me conter em cela incabível?



Me contas do teu reino tão distante

Histórias de um amor que nunca veio,

Paixão que te arrasta alucinante,

Rompendo a escura noite num anseio



E cruzas o negro véu como um espanto

Espalhas a tua prata em luz de pranto,

Eterna madrugada no teu céu,



Eu sigo do teu rastro, a fantasia,

E lavo a alma em tua nostalgia,

Traz o meu coração como um troféu.

Dá-me



Dá-me uma gota
Da água desse cântaro,
Desse canto,
Do teu universo,
Mas, não fala.
É indizível,
Escreve.

Dá-me um navio
No mar,
De volta ao sul
E ao início,
Mas, não fala.
Desenha um oceano.

Dá-me uma mão
Que eu peço um braço
De mar, de sol,
A luz extensa,
Dá-me a sua hora,
Dá-me a visão da aurora.

Mas, não fala.
Não abre a mágoa,
Mas me ilude.

5 de abril de 2008

A taça da saudade


Me perco olhando os astros todo dia
Talvez venha daí algum sinal
Que venha me curar essa apatia
Perdida em solidão tão abissal.

Eu bebo em grandes taças a saudade
E colho as flores brancas da ausência
Envoltas em espinhos da verdade
Da dor, a cor da falta e sua essência.

Na luz de tantos astros espalhados
Num céu de brigadeiro e ilusão
Envolvo os sentimentos albergados

No fogo que inflama as esperanças
Eu queimo o pranto dessa solidão
E durmo envolvida nas lembranças.

2 de abril de 2008

Do encontro



Quando me alcanças
Na brevidade do tempo,
E pousas de cetins e ternuras
No meu corpo,
Me visto de tênue fantasia,
Teias, malhas, ossos de ouro,
E te faço meu,
Senhor das chamas
E do meu silêncio,
E das águas marulhadas em pranto
Onde adormeço.

Quando me alcanças
Nas alturas onde somos
Carne e desejo,
E me ofereces mãos,
E ânsias
Histórias de amantes
Embrulhadas em fios de sol,
Livro-me dos breus, das brumas
Pra onde fogem os meus olhos,
Antes do adeus.

Quando me chamas
E me cobres em seu linho branco
Bordado de esperança,
Tatuagens no meu dorso,
E me desdobras em luas e marés,
Debruço-me sobre o mármore de Paros
Das mesas, e dedilho poemas,
Plenos de segredos e de gozos.

E penso ser a lua,
A nave mãe dos astros,
Esculpida de emoções
No bronze sonante
E no alabastro.
E sou pouco mais que nada,

Refletindo imagens
Do meu desejo

Nas aguadas.