“No Hades, ele (Sisifo) foi condenado, tendo de rolar, por
toda a eternidade, uma pedra até o cume de uma montanha, que rolava novamente
sobre ele”. Hamilton, E.
Escrevo, às vezes
Com essa mão decepada
Da alegria
É que a poesia
Também é ira
Essa belicosa fera
Essa pedra.
Fere
E abre ferida
Enche-a de lodo
E sal.
Um mal
Acima do meu desejo
Meu mal
Meu beijo.
Súbito trejeito
Da alma
Coisa impalpável
Essa letra de fel.
Letal
Libido sem freios
Esse poema louco
Acéfalo cavalo de fogo
Correndo nas pautas
Nas patas insubmissas
Do papel.
Canta, sussurra
Grita
Essa ira
Essa belicosa fera
Essa pedra.
Sandra Fonseca
