1 de novembro de 2009

EU VEJO O MAR




Durmo
o sono injusto
da espera
e o sonho repetitivo
de um outro dia.
Sei agora o que sou
sem lembrar
quem mesmo era.
um poema me tocou
ao centro da fronte
defronte a alma
E me roubou
noites tantas
fontes
dores que já não doem
ardores que já não desassossegam
em barcos que já não navegam.

O dia se iguala a noite
e tudo equivale a nada
o sol é lua apagada
e sei que já não me lembro
da alma antiga que tenho
correndo por essa estrada.

a madrugada vai alta
a lua de papel de seda
jaz num charco atirada
e eu, pensei num poema
feito de luz e sombra
de sutileza
e rumor.
Prá dizer que nunca sei
se essa voz que canta é minha
se é minha a que pranteia
por fim se sou o que escrevo
ou se escrevo o que sonho.

o que sei, eu sei do sonho
e nem sei nada da vida
se o que sei é o que suponho
eu não sei nada de mim.

um coração histrião,
uma flor despetalada
boiando em rio sem fim.
doida, a alma
na proa da nau sem vela,
a vida é terra
é pura pedra
e eu vejo o mar.

18 de outubro de 2009

Saciedade dos Poetas Vivos Digital nº 9



Saciedade dos Poetas Vivos Digital nº 9 versa e verseja sobre as QUATRO ESTAÇÕES – os ciclos da natureza e/ou a comparação deles com as fases humanas: o começo (aflorar/desabrochar), o auge (a expansão e o climax), o declínio (ocaso/reflexão) e o fim (frieza/tristeza) de uma paixão, de um sentimento intenso. Cada uma, em separado, narra um capítulo; juntas, retratam às vezes uma vida inteira, em uma espécie de cena contínua de uma obra aberta, de um work in progress. A idéia de desenvolvermos esta temática surgiu através de uma pesquisa que realizamos há algum tempo sobre Vivaldi. O compositor d' As Quatro Estações – sua obra mais famosa – expressa musicalmente os fenômenos da natureza e/ou os períodos sentimentais a eles metaforicamente equiparados: o eclodir/agir do primeiro impulso, a alegria-plenitude, a dúvida/reflexão e o término de uma relação afetiva. Nasceu portanto da música a poesia deste volume.

Em todas as artes, as estações sempre despertaram obras maravilhosas; na poesia elas apareceram milnearmente nos kigos, que são o pilar das construções dos haicais tradicionais, e que se constituem por uma palavra ou expressão que sugere uma estação ou época do ano. Escreve Teliti Suzuki, Conselheiro do Centro de Estudos Japoneses da USP, no prefácio do livro "Natureza - berço do haicai - Kigologia e Antologia", organizado por H. Masuda Goga e Teruko Oda (1996):

O preceito budista de que tudo neste mundo é transitório aparece na literatura japonesa desde seus primórdios, mais exatamente, na primeira antologia poética compilada no século VIII.
Nos versos encadeados (renga e haikai renga), essa transitoriedade é expressa pelos kigo (termos de estação) que remetem às estações do ano ou a fenômenos sazonais e que devem constar obrigatoriamente da estrofe inicial do encadeamento, denominada hokku . Este hokku, por sua vez, passa a constituir um gênero independente a partir dos fins do século XVII, justamente quando o haikai renga da escola de Bashô se consolida com sua poética genuína.

Dia de primavera —
Os pardais no jardim
Tomam banho de areia.

Onitsura

O rio de verão —
Que alegria atravessá-lo
De sandálias à mão.

Buson

Em qualquer lugar
Onde se deixem as coisas,
As sombras do outono.

Kyoshi

Sem guarda-chuva
E sob a chuva de inverno —
Bem, bem!

Bashô

Fonte: Antologia de haicais japoneses - http://www.kakinet.com/caqui/antojap.shtml

Contemplar a natureza sempre foi motivo de aprendizagem, reflexão e legado de experiências. Na nossa Saciedade dos PoetasiVivos, vol. 9, apresentamos o movimento das estações através de variadas propostas estéticas, na voz de dezessete poetas contemporâneos: Clevane Pessoa, Débora Siqueira Bueno, Dora Tavares, Jania Souza, Jaqueline Serávia, João Nilo, Márcia Sanchez Luz, Mariana Pinto, Pam Orbacam, Pedro Du Bois, Regina Vilarinhos, Sandra Fonseca (http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/obrasdigitais/saciedigpv/09/sandrafonseca01.php), Sandra Souza, Sônia Adarias Soares Bruno, e dos nossos convidados especiais: Celso Gutfreind, Elisa Lucinda e Wilson Bueno (este último com um belíssimo repertório de rengas, nesta Antologia).

Cada vez mais as estações do ano - pela ação predatória do ser humano e os consequente efeitos de estufa, principalmente - estão diferentes e mesclados: temos primaveras invernosas, invernos quentes, verões outonais, outonos primaveris. Porém, como "nos terrenos terrenos/ nada é definitivo", como escreve Celso Gutfreind, que a poesia venha reestabelecer a certeza de mudanças e a plena vivência dos climas e estágios da vida, sob todas as suas variações de luz..

Urhacy Faustino e Leila Míccolis
EDITORES

Lançamento oficial: 13 de outubro de 2009
(Dia Mundial do Escritor)
Créditos:
Capa: Vande Rotta Gomide
Título: Eduardo Feijó Netto Machado
Seleção de textos: Leila Míccolis
Webmaster: Urhacy Faustino

2 de outubro de 2009

NASCENTE

Num veio cristalino

Um fio d’agua

Se pronuncia

Rompe o ventre

A vastidão da terra.

E um rio logo corre

Célere, vigoroso

Cavalo de água

No verde dorso da serra.

Seus fios de teia

De renda molhada

Seus passos de fera

No fundo das grotas.

Amansa cantigas

De amores e tempos

De luas meninas

Planícies e ventres.

Um rio serpenteia

Cá dentro da mente,

Um rio de versos

De lendas e lavas

Desceu num galope

Sem rédea

Nem freio.

Um rio

Um poema

Surgiu de um grotão

De um vão

De uma lavra.

Rompendo os limites

Os véus do desejo

A língua, o silêncio

E a sina dos medos.

Um rio

Um espelho de águas

Enchentes,

Vazantes, e lagos

E mares

Saltando os altares

Profanando as gentes.

Um rio

Um braço

De mar desgarrado

Correndo liberto

No leito das veias.

Descendo as montanhas

Os vales, as serras

Nasceu de repente,

Em meu corpo

De terra.


Sandra Fonseca


27 de setembro de 2009





Cobrir de falso linho

A ilusão

A carne.

Desmedido

Sangra o coração

Estranhas gotas

Passionais da fantasia.



Carne

Poesia

O que é mesmo verdade?

Há vestígios de mim

Nesta arte

Alegoria

E culpas desenhadas

No meu corpo triste.



O rosto

Arde.

Um milharal incendiado

Descendo o tronco

Até a pluvial

Bacia.

E, no entanto, olhos ígneos

E palavras

Irisadas confidências

Num canto da boca

Falam.


Falácias

Cantos comovidos

O que minto

Desavisada

Fazedora de versos

Verborrágica

Inconsentida

Ávida.



Inexato e febril

Meu corpo poético

Que atravessas.



Sandra Fonseca

14 de julho de 2009

ISSO

É um poema
Essa trama de veias
Essa coisa de asas
E de apelos.
Um galope sem freios
Um camafeu
Comovido o meu retrato
Ao meio
Do vidro partido
Coração.

Me sei assim
Isso
Poeta
A espera de outras fomes
Cuido da espada
Atravessada ao meio
Da jugular
Assim é dor
E desespera
Mas, não sangra.

Isso
Poeta
Vigio o poço
Onde atiramos os desejos
E ainda persigo os sonhos
Como ovelhas fugidias
Num pasto de estrelas.

Sempre à noite
Quando as palavras
Se carregam mais
De tragicidades
urgências.
E, com alguma arte
E possível ouvir-lhes
(Das palavras)
O som.

Isso
É assim.
Um verbo no início
Um poema
No fim.

3 de junho de 2009

24 de maio de 2009

DESIDERATA



Maldisse
O meu resquício de asas
A voz interior
Das mágoas
Que precipitam em mim
Essas canções.

Tantas vezes tentei morrer
Um tiro certeiro
No pé da minha palavra
Acerta o coração
Acende a solidão
Milhões de olhos-holofotes
Apontam
A mesma direção.

Despida a flor de bem-querer,
Secada a fonte
Nada demove
A força do verso
Que invade.
Chegado ao fim
Volta ao início
Uma chave na mão
E um baú de sentimentos.

Um fogo primitivo
No côncavo do gesto
E a espera infinita
Do homem da noite.


Sandra Fonseca

11 de maio de 2009

THALITA


É como um grande amor que nunca finda

Metades de ternura e desafio

A vida, uma grande festa por um fio

Correndo em teu olhar criança ainda.


Ventura é tua vida que começa

Certeza, o meu amor que te garante

Fazer do teu sorriso, esse instante

Impresso em minha vida qual promessa


A minha flor- de-maio, flor-menina

Há de viver num sonho a sua sina

Há de brilhar estrela de grandeza


Igual ou bem maior que o próprio sol

Um anjo ao teu redor como um farol

Protege a tua luz, tua beleza.



Feliz aniversário, Tita.

Mamãe ama!

11/05/09


10 de maio de 2009

CONCEIÇÃO B. E SEU NOVO LIVRO

A autora Conceição Bernardino e a Editora Mosaico de Palavras, têm a honra de convidar V.Exas. a estar presente na sessão de lançamento do livro “Linhas Incertas”, que terá lugar no próximo dia 30 de Maio, pelas 15.00 horas, na Casa Museu Teixeira Lopes, na Rua Teixeira Lopes, 32 – V.N.G (perto da Câmara de Gaia).

Prefaciado pela Doutora Goreti Dias

Os textos de Conceição Bernardino não escapam à descoberta de um determinado ponto de vista, ou seja, ao inevitável pressuposto de um sujeito, já que não existe uma análise absolutamente neutra, sem indivíduo. Cada poema é uma situação de comunicação em que a subjectividade dá lugar à apresentação claramente incisiva de alguém que gira nas esferas de valores observadas e colhidas na sociedade, ciência, moral e arte, a reflexão de um acto de conhecimento da autora em contacto com o mundo real, as suas injustiças, guerras e desamores. (…)

A poesia de “Linhas incertas” tem uma força imagética que nos roça a pele e penetra a carne, uma magnitude que, poesia dentro, se faz a cada verso mais crua, mais real. A presença de predadores na esquina dos desprevenidos, dos simples e dos desprotegidos! Da passividade à actividade, o sujeito da enunciação instiga “Crentes do nada, do vazio, levantai a cruz,/que a morte cala todos os dias...” em “ Sexta-feira Santa”; as palavras oferecem-se à partilha da dor: “Sou um pedaço de carne/que atiram aos cães”, em “Retirem-me estes cadeados”.




A apresentação da obra será feita pela escritora Rosa Maria Anselmo


http://www.mosaicodepalavras.com/Home

24 de abril de 2009

O VESTIDO


As rendas roçando a carne
A arte da seda
A pele sobre a pele
Secreta
Devassa do colo.


O solo do ventre
O quente do ninho
A boca de linho
Lambendo as coxas
Os braços em pétalas.

O tule abrindo o seio
A curva da cintura
Arquitetura do segredo
O ouvido colado
Ao rumor da voz,
O veludo.

O escondido do tecido
O ardil, a trama
De um feminino capricho.
A ardência, a chama
O colorido
A dança
Do estampado
Desenho.

O pedaço da rosa
Desdenhosa,
O olhar da esfinge
Pousa
Graciosa
No arco das ancas,

Desmedidos sonhos,
O limiar do desejo,
O infinito beijo
No frescor
Do tecido.

O regaço do mundo,
O decote profundo,
A nave-mãe dos astros.
O falso-frágil
Feminino.
As frestas, fendas,
A chave- mestra,
O vestido.

13 de março de 2009

CORPO SILENCIADO




Eu preparo

As madrugadas

O leito onde me deito

E me farto

E me deleito,

Oceano de mágoas

O branco,

Lívido lençol

Das palavras

Desenhadas a dedo,

O segredo

Sangrando, aberto.

Há um deserto

Composto à ermo

No corpo silenciado.

O reflexo dos gestos

Antigos,

Cenas recortadas,

Cuidadosamente,

À navalha.

Como um corpo

De águas se desfazendo,

Como um rio vai sangrando

Mar aberto ao peito,

Como os olhos cansados

De percorrer distâncias

E as mãos se fartam

Das ausências,

Pede prá dormir...

1 de março de 2009

O ALVO DA PALAVRA















Pulsando em céu da boca feito fera
Num verso, um maldizer que não se fala
Segredo, um bem-querer que não se cala
Um fado, uma cantiga da Severa.

Palavra, a cor da letra, de repente,
Semente a reviver dentro da planta.
A fonte e o alimento e a fome tanta
Que acende o coração, perturba a mente.

Papéis, rotas do mar, a flor de sal
No mel o seu disfarce em grande mal
Escreve a ânsia, um céu que não se alcança.

Disfarça o gosto amargo em outra festa
Destila a poesia que me resta
Aponta a sua seta, então me lança.

6 de fevereiro de 2009

A CASA DO SENHOR DAS ÁGUAS



Não apresso a despedida,

Não apresso o rio,

Cultivo esse nó

Que se desata, eterno,

Lento.

Lentamente cavalgando as luas

Delírio de astronauta.

Coisas, gestos mínimos,

Canto da boca,

De onde recolho gota- a- gota

O sumo, a essência.

Isso que não é lunar

E por ser movediço

E denso,

Também não é terreno.

É onda

Quando se alevanta

Arrebatando voraz

A fauna,

A flora,

A vida marinha,

E se arrebenta praia

E se aquieta

Do seu próprio furor

Se se alimenta,

Argonauta.

Domínios do mar,

Onde resido.

Onde a maresia

Chicoteia o vento

E lambe meus pés de areia,

Passageiros.

Isso de que falo

Me arrebata,

Avassala.

Se estende desmedido

Entre os mapas,

As omoplatas,

E faz do ventre

Um ninho de gaivotas.

Isso de que falo

É marulhoso, infinito,

Tenso.

E eu não desejo

Escapar da sua casa

Senhor das águas,

Mar esplêndido



Sandra Fonseca

O ABRAÇO DA NOITE



A noite é um negro olhar e se avizinha

Perscruta com prazer minha agonia

Perdeu seu toque azul, a fantasia

Apressa-se em saber que estou sozinha


Furtiva, sem que eu saiba, me enlaça,

Seus braços como aço em meu redor

Derrama em minha boca a sua dor

A noite é caçadora e eu sou a caça


Eu fujo, piso estrelas, distraída

Quero sair de onde não há saída

E o frio corta os ares como espada


A minha alma se enche de esperança

Eu guardo com ternura uma lembrança

De um sol dourado em plena madrugada


Sandra Fonseca