13 de março de 2009

CORPO SILENCIADO




Eu preparo

As madrugadas

O leito onde me deito

E me farto

E me deleito,

Oceano de mágoas

O branco,

Lívido lençol

Das palavras

Desenhadas a dedo,

O segredo

Sangrando, aberto.

Há um deserto

Composto à ermo

No corpo silenciado.

O reflexo dos gestos

Antigos,

Cenas recortadas,

Cuidadosamente,

À navalha.

Como um corpo

De águas se desfazendo,

Como um rio vai sangrando

Mar aberto ao peito,

Como os olhos cansados

De percorrer distâncias

E as mãos se fartam

Das ausências,

Pede prá dormir...

1 de março de 2009

O ALVO DA PALAVRA















Pulsando em céu da boca feito fera
Num verso, um maldizer que não se fala
Segredo, um bem-querer que não se cala
Um fado, uma cantiga da Severa.

Palavra, a cor da letra, de repente,
Semente a reviver dentro da planta.
A fonte e o alimento e a fome tanta
Que acende o coração, perturba a mente.

Papéis, rotas do mar, a flor de sal
No mel o seu disfarce em grande mal
Escreve a ânsia, um céu que não se alcança.

Disfarça o gosto amargo em outra festa
Destila a poesia que me resta
Aponta a sua seta, então me lança.