22 de julho de 2011

POR AMOR À PALAVRA



Estou na
Antecâmara
Da palavra
Estou na véspera
Desse verso vago
Que me invade
Sem ter pressa.
Num labirinto
Sem saída
Persegue-me.
Estou no segundo
Antes
Da palavra,
Estou no prenúncio
Desse grito
Que me grita
Inteira
E pelo meio
Me devora
Numa solicitude calma.

Estou no pretérito
No ontem
Da palavra.
Estou no âmago
Dessa palavra que me ama
De um amor sem saída
Que se vive, fere
A minha liberdade.
A palavra me ama
Com ganas
De morte.


Sandra Fonseca In: A solidão das mulheres poetas

Imagem: internet

19 de junho de 2011

FENÔMENO


Que voz, que vento

Maresia, pensamento

Que mesmo é isso

Encanto

Mão de ferro na garganta

Brilho de cristal

Na escuridão.

Que pedra rara

Lâmina que roça o pulso

O pulo do gato

Língua de trapo.

Revolve o fundo

A s entranhas, a carne

O sopro no cabelo

Da memória distante

O dolorido desse instante

Um portento, um gigante

Avassalador encanto

Um verso arde

No canto do olho





Sandra Fonseca



*Imagem da internet

15 de maio de 2011

MENINA SEM OLHOS

No espaço entre as palavras

Faço um barco

Um infinito de plumas

E asas azuis

Esse meu mar de ilusão.

Fundo um reino

Feito todo de ar

E luz

E poesia

E nem mesmo sei

Que matéria a inventa

Que rara estrela acende

Tochas e aves como braços

De sol.

Onde há silêncios

Cortando como facas

Sobre o altar de um abismo

Uma menina sem olhos

Canta.

A sua alma é toda

Feita de ouvidos

E harpas.

Aos poucos despe

Suas carnes parcas

De barro e água.

Montes de braços

Traços e asas

Na voragem

Inenarrável

Da vertigem.

26 de abril de 2011

Dona da lendas (Ária à poesia)



Permita-me

Dividir contigo

Teu casaco, tua bebida

Gotas, lentilhas, diamantes

Teu anel de única palavra

Brilhando no escuro.

Permita-me

Braços dados

Velhas senhoras meninas

Nós duas seremos

Estranhas a esse mundo

De sombras e de muros.

Se divido teu passo

Esse pisotear de pétalas

Teu hálito de surpresas

Inefável

E empresta-me teu vestido

O cetim, a renda

O brocado.

Lírica, mítica

A dona das lendas

Eu me vejo

Trágica, seráfica

Encharcada de risos

Atravessando de valsas

E de tangos

A ira das borrascas.

Eu e tu,

Senhora

De mãos dadas

No largo da praça

Embriagadas de letras

E de cantos

Seduzindo a vida.

Sandra




foto: http://grupotablado.wordpress.com/