11 de novembro de 2013




A CASA DO SENHOR DAS ÁGUAS


Não apresso a despedida
Não apresso o rio
Cultivo esse nó
Que se desata, eterno
E lento.

Lentamente cavalgando as luas
Delírio de astronauta
Coisas, gestos mínimos
Canto da boca
De onde recolho gota a gota
O sumo, a essência
Isso que não é lunar
E por ser movediço
E denso
Também não é terreno.

É onda
Quando se levanta
Arrebatando voraz
A fauna
A flora
A vida marinha
E se arrebenta praia
E se aquieta
Do seu próprio furor
Se se alimenta
Argonauta.

Domínios do mar
Onde resido
Onde a maresia
Chicoteia o vento
E lambe meus pés de areia
Passageiros.

Isso de que falo
Me arrebata
Avassala.
Se estende desmedido
Entre os mapas
Das  omoplatas
E faz do ventre
Um ninho de gaivotas
Isso de que falo
É marulhoso, infinito
Tenso.
E eu não desejo
Escapar da sua casa
Senhor das águas
Mar esplêndido.


Sandra Fonseca

3 de julho de 2013

MEMORÁVEL





Pousou sobre
As suas coxas
Era um frêmito
Um alvoroço de plumas
Penugens
Pelos

A boca sabia
A sal
A pele roçava nua
Abriu-se dócil
A intenção do ato
O que a língua fala
E o desejo
Compactua

Ligeiros
Ágeis espasmos
Estertores
De prata e espuma
A noite testemunhava
Plácida bruma
A cena memorável:
Um pássaro pousado
No ventre da lua.


Sandra Fonseca

3 de junho de 2013


INCOMPLETUDE



Editar textoEliminar texto
  Mãos de navalha
Eu vou
Cortando rumos
Cortando a noite
Em luas,
Eu vou a esmo

Por dentro
Dos vendavais
Dos sonhos
Enraizada ao medo
Mulher de carne
E bruma
Mal disfarçada, nua
Eu vou

Atada ao dorso
Desse corcel
Feito de fogo
E asas,
Por sobre o oceano
Inteiro
Por sobre as casas
Eu vou
Ao léu

Abrindo
Terras estranhas
De fendas, mágoas
Tamanhas
De mim,
Estrangeira
Levando
Dentro do peito
Um coração voraz
O filho bastardo
De um sonho
Incontinente
Fugaz

Devorador de ilusões

Eu vou me repartindo
Ao meio
Sou parte
Cheia de espanto
E outra parte
Desejo
Eu vou...



Sandra Fonseca

14 de abril de 2013

COLADA À TUA LUZ




Como se fosses morrer
Me calo em sua boca
Sôfrega, te respiro
Vida
E te desenhas
Rictus, sorrisos
Nas maças do meu rosto
Vasculho de novo
Sôfrega, repito
Teu fundo poço
O lamaçal, o fosso
Onde me guardas
Das palavras
Colada a tua luz
Sou frágil
Inseto, transparente
Quase abjecta.
Insisto
Persigo os teus desertos
Faço do teu dorso
O meu atalho incerto
E atravesso a noite
Deslumbrada de medo.
A noite eterna e um sonho
meu precioso diamante
Colada à luz do dia
Espero amanhecer.



Sandra Fonseca



17 de fevereiro de 2013

Fogo e água



Tudo se envolve em chamas, tudo arde
Até o leito do rio aonde, náufraga,
Mergulho em estupor a minha saga
E vou me afogando sem alarde.

Num desatino, a alma em desalinho
O amor se move a esmo, pede um braço,
O ninho caloroso de um abraço
Envolto em línguas de águas e de linho.

Eterna ardência a sede dos teus mares
Eu sonho grandes asas sobre os ares
Imenso céu que sabe o mundo inteiro.

Teu corpo é quilha, casco de um navio
Saltando as emoções do mar bravio,
É fogo sobre água, barco, marinheiro