15 de maio de 2011

MENINA SEM OLHOS

No espaço entre as palavras

Faço um barco

Um infinito de plumas

E asas azuis

Esse meu mar de ilusão.

Fundo um reino

Feito todo de ar

E luz

E poesia

E nem mesmo sei

Que matéria a inventa

Que rara estrela acende

Tochas e aves como braços

De sol.

Onde há silêncios

Cortando como facas

Sobre o altar de um abismo

Uma menina sem olhos

Canta.

A sua alma é toda

Feita de ouvidos

E harpas.

Aos poucos despe

Suas carnes parcas

De barro e água.

Montes de braços

Traços e asas

Na voragem

Inenarrável

Da vertigem.

26 de abril de 2011

Dona da lendas (Ária à poesia)



Permita-me

Dividir contigo

Teu casaco, tua bebida

Gotas, lentilhas, diamantes

Teu anel de única palavra

Brilhando no escuro.

Permita-me

Braços dados

Velhas senhoras meninas

Nós duas seremos

Estranhas a esse mundo

De sombras e de muros.

Se divido teu passo

Esse pisotear de pétalas

Teu hálito de surpresas

Inefável

E empresta-me teu vestido

O cetim, a renda

O brocado.

Lírica, mítica

A dona das lendas

Eu me vejo

Trágica, seráfica

Encharcada de risos

Atravessando de valsas

E de tangos

A ira das borrascas.

Eu e tu,

Senhora

De mãos dadas

No largo da praça

Embriagadas de letras

E de cantos

Seduzindo a vida.

Sandra




foto: http://grupotablado.wordpress.com/






9 de março de 2011

POR ANAÏS NIN



Escrevo,
Respiro.
Escrevo tal a necessidade vital
Que a experiência traduz
Escrevo,
Preciso,
Tal como o mar precisa
Da tempestade
E o escuro
Da luz.
Reluz
O ouro da palavra
Na busca incessante
Do maravilhoso
Do infinito que toca
O espaço,
As coisas.
Dão-me febre
As palavras,
Iluminação,
Graça.´
E quando essa música
Para na minha cabeça,
Então remendo meias,
Colho frutos,
Mas, sinto
Que não vivo.



2 de março de 2011

TU, OCEANO



Não

Me importo mais

Que te demores

Se te sinto

Cada vez mais

Fado, destino.

Não desatino mais

Em madrugadas vermelhas

Em luar

De luas pálidas

Perfeitas

Se te tenho em cada istmo

De um desejo urgente.

Se o tempo vai

Machucando coração

Bocas

Veias

Abrindo rios

Torrentes

Cachoeiras

Que se vão desaguar

Na vastidão dessas águas

Onde habitamos

Eu, mulher do mar

Tu oceano.

17 de fevereiro de 2011

PAPÉIS E ESTRELAS ROUBADAS



Tortuosos
Os caminhos de dentro.
Seguir a fantasia
O horizonte sem alcance
O intangível corre
Com a ilusão.
Há um cansaço
No vidro dos olhos
De tanto rodar aventuranças
E filmes antigos.

Eu peço
Licença de não sonhar
Momento isento
Entre o azul do céu
E um negro tormento.

Tenho uma gaveta
De papéis e estrelas roubadas.
Eu tenho mil disfarces
Para o mal de sonhar.

O silêncio fechado num leque
De poemas
Eu abro num rompante.
Nele, eu silencio
Paisagens
Corpos
Luas que nunca existiram.
E a alma corre
Seu caminho de dentro
Lavra em seu delírio
As pedras brutas
Do sonho.





Sandra Fonseca

13 de fevereiro de 2011

É AQUI



É aqui
Onde toco as palavras
Que sei de mim.
Alguma certeza,
A alma contra a luz
Do dia,
Os ossos, a carnadura.
A leveza do ouvido
Colado à brisa,
A canção que só a mim
Cabe silenciar.
E a boca pausada
Se movimenta
E articula a beleza
Secreta, sedenta,
O mistério da palavra.
Ouvi,
A poesia me canta
Por dentro
Como um pensamento
Como um coisa imorredoura,
Sangramento,
Sem causa,
E sem pausa,
Arrastamento.
É aqui
Que eu encho os meus olhos,
De absurdo
E de espanto,
É aqui que eu fecho os meu ouvidos,
E canto.

Sandra Fonseca

18 de julho de 2010

SETEMBRO





Sei do meu tempo
esse rosto breve e moço
as lavras arrastando sonhos
e os subterrâneos
da semente
preparando setembros.

Penso o verde rio
alisando o corpo
da mãe das águas
e os mares tingindo
em azuis os barcos
e as sereias.

A areia branca
de rendas e teias
enfeitada de conchas
e a chuva das pétalas
contornando o dia.

Penso setembro,
manhã de nostalgia,
setembro foi ontem,
setembro é uma esperança
pintada de branco.

Setembro não vem.

4 de julho de 2010

ÁGUA SOBRE A PELE




Jorra
A fonte alta
Sob a pele
Chuva
Chovem as luas
Fagulhas
Pontas de facas
Estrelas nuas

Suam
Melíferas espumas
Poros dilatados
Mergulham
Pontas de agulhas
Adentro
A alma
Despe-se
De seus vestidos de águas.
O corpo sucumbe
Íncubo tormento
Líquido
Sagrento
Seu branco leito
Navegante
Afoga-se
O sexo dormente.
Retorna
À fonte.

18 de abril de 2010

O LIVRO DE MAGDA LUNA PAIS


Lançado pela editora Temas Originais, o livro da amiga Magda, “Vida na Internet” . Como grande leitora que é, Magda traça suas impressões sobre a realidade virtual que nos insere a todos।


Sinopse: “Vida na Internet” é o primeiro livro autónomo de Magda Pais, que compila as experiências que a autora viveu, ou que lhe foram relatadas por terceiros, enquanto internauta e frequentadora assídua de blogues e sites de literatura, dando-nos a sua visão pessoal das realidades sociais associadas. Encontramos ainda, neste livro, algumas explicações técnicas, dadas de forma acessível, permitindo, ao leitor, esclarecer dúvidas ou levantar questões sobre as quais nunca terá pensado.

Magda Luna Pais nasceu em 1969 no Barreiro. É casada e mãe de dois filhos. Foi sempre uma leitora assídua, e nunca pensou em escrever até encontrar o site www.luso-poemas.net que veio alterar parte da sua vida. Deste site, onde exerce funções de moderadora, e do qual foi administradora, saíram novos amigos e ideias para este livro. Tem o seu próprio blogue http://stoneartportugal.blogspot.com, onde, para além dos seus textos, divulga textos de outros autores. Participou na Antologia Luso-poemas 2008, editado pela Edium Editores e na colectânea “A arte pela escrita”, editada pela ArtEscrita.

Saiba mais em:

Stoneartportugal - Pedra Filosofal

1 de novembro de 2009

EU VEJO O MAR




Durmo
o sono injusto
da espera
e o sonho repetitivo
de um outro dia.
Sei agora o que sou
sem lembrar
quem mesmo era.
um poema me tocou
ao centro da fronte
defronte a alma
E me roubou
noites tantas
fontes
dores que já não doem
ardores que já não desassossegam
em barcos que já não navegam.

O dia se iguala a noite
e tudo equivale a nada
o sol é lua apagada
e sei que já não me lembro
da alma antiga que tenho
correndo por essa estrada.

a madrugada vai alta
a lua de papel de seda
jaz num charco atirada
e eu, pensei num poema
feito de luz e sombra
de sutileza
e rumor.
Prá dizer que nunca sei
se essa voz que canta é minha
se é minha a que pranteia
por fim se sou o que escrevo
ou se escrevo o que sonho.

o que sei, eu sei do sonho
e nem sei nada da vida
se o que sei é o que suponho
eu não sei nada de mim.

um coração histrião,
uma flor despetalada
boiando em rio sem fim.
doida, a alma
na proa da nau sem vela,
a vida é terra
é pura pedra
e eu vejo o mar.