31 de março de 2008

Versos, pétalas, manifestos



Deixo que os poemas
Pousem nos meus livros
Como aves sem abrigo,
Mensagens em risco
De extinção.

Alimento-as,
Poemas- aves,
Palavras- chaves
Em minha mão.

Deixo-me ficar
Nos ocos espaços
Entre o meu corpo
E o ócio criativo
Das palavras vãs.

Vã...
Sou eu
Quando se vão.
Quando me esquecem
E não me inundam
A alma,
E não me salvam,
E não me acalmam
A alma e o coração.

E no espanto
De perdê-las,
Palavras-aves,
Guardo-as em
Versos,
Pétalas,
Manifestos vivos
Enclausuradas emoções.


30 de março de 2008

Ária para meu verso


Não sei de onde vem o verso
Se da ponta da língua, no amargor
Das construções do eu interior
Cor local, meu som, meu universo.

É seta cruzando o céu, no vão da boca
Linguagem gestual riscando a palma
O canto sem cantor que lava a alma
Tantas vezes sem pudor, palavra louca.

Pulsar de um coração cheio de espanto
Que trago em minha mão como um cristal
O verso me marcou na sina, seu sinal,
Na pele me cobriu de luz, seu manto.

No cerne da palavra, a fonte e a vertente
Por onde me levou flor boiando em rio
Semente a germinar, terra no cio
Imagem em esplendor dentro da mente.

No ardor da escrita acendo a chama
Espada da poesia, a mão erguida
Me fere com prazer dor desconhecida
Arranha a minha mão e ainda reclama.

Não nasce explicita, palavra crua
E não revela a sua face no espelho
É segredo, sussurro, breve conselho
Que ao se revelar me torna nua.

29 de março de 2008

Fado desamor



Melhor que não me ames
Que nunca me reclames tua.
Que sejam murmúrios
A sua voz de vento
Na minha rua,
E essa espera infinita,
Tamanha.
Pois assim te sinto meu,
Por dentro.

Eu não te saberia assim,
Não fosse de sonhar
A tua mão rude e plena,
O aperto que me darias na garganta,
Antes do beijo.

Sabes bem o quanto vivo de inventar
Paixões a esmo
Nas tramas da minha secreta poesia,
Rede de versos,
O meu enredo,
O encanto, o encontro que não veio.

E a cada noite
Eu colho a flor da tua ausência
E quando a sombra das horas tardias
Me envolvem,
E eu esqueço,
Lapso dos sonhos.

Mas a inexorável madrugada,
A mesma que me devora em saudade,
Reabre em seu real cenário, o dia.
E sem tí,
Eu amanheço.

Reinvento os gestos
E na dor da matéria
Eu movimento o meu corpo,
Amante das esperas.
Presa de fragilidades tantas,
Dessas súplicas, dessas vestes,
Eu me cubro.
Empunho o discurso da palavra,
A veemência de dizer,
Meu grito,
O que chega a tí,
Brando sussurro.
O que prá mim é brado, torrente,
Manancial de água e pranto,
Onde me afogo
E me deleito
De ser escrava sem seu senhor.

Por conta desse amor,
Atormentado canto
Eu me detenho, e por séculos,
Me abandono
de desejar outros sonhos.
Pois a espera
É o próprio encanto,
Singular encontro,
Dedilhando lento
Um fado desamor.

26 de março de 2008

Adormeço o amor




No rosto a calma é pura aparência
Eu olho no espelho e nada vejo
Adormeço o amor em tua ausência,
Estendo os braços, muda, e te beijo.

Carrego a noite, a lua por sentença
E o galope dos ventos na janela
É dura a dor assim dessa presença
Saudade envolta em bruma, aquarela.

Ao longe, eu sei do vulto, das passadas,
Daquele que atravessa as madrugadas
Trazendo um sol imenso e verdadeiro.

E esse breve raio me conforta,
Invade o pensamento e abre a porta
Da espera, dissipando o nevoeiro.

24 de março de 2008

Decifrando poemas



DECIFRANDO POEMAS


Invólucro de éter,
Invisível um arco-íris de ares rarefeitos
A revelar meus medos mais medonhos
E outros tantos segredos mais secretos.

Como se me perdesse
Assim, eu vivo,
A decifrar poemas no meu canto,
Adormecendo a alma
No mistério e no acalanto das sereias.

Assim, em ocres e azules, dissolvida,
Eu sigo me desfazendo em cores frias,
Recompondo-me de flores em carne viva.

Como se eterna fosse a despedida,
E eu tão eterna e diminuta,
Imensa em minha sede
De amores e de águas,
A súdita lunar das madrugadas,
Respirando o hálito dos astros.

Imaterial, o que eu penso,
Há um diamante no sol
E pousa um esplendor
Sobre o meu ventre.
Pensar que sou lunar e nave,
Voo de garça sobre os girassóis.
Embora não há razão
Amanheço sonora,
Ensolarada,
A persistir cantando.


23 de março de 2008

Aurora boreal



AURORA BOREAL

Hei de tecer-te
Em panos delicados,
Nas rendas da ternura
E da ilusão,
Nos cores tênues
Dos vitrais,
Nos vidros das capelas,
Catedrais,
A rima de um verso,
Bordado,
Mais bonito.

Hei de cantar-te
Aos quatro cantos
A canção que embala o sonho
Sem lamentos,
Do universo.
Em frêmitos,
Suspiros, pensamentos
No eco eterno
Das conchas
Oceânicas.
O som dos sinos,
Os hinos todos,
Os mantras
Do universo.

Hei de calar-te
A voz,
A dor,
O seu algoz.
Desamarrar os nós,
Aliviar a imensa mó,
Pedra dos deuses,
E descansar
Em peito aberto
A febre,
E o desejo,
Maior das fomes.

Hei de ser-te
Real,
Maior que o cume
Além do bem e do mal,
E do ciúme,
Ser corpo e templo
E luz,
E lume,
Aurora boreal.







21 de março de 2008

Arquétipo feminino



ARQUÉTIPO FEMININO



Do meu universo
Interior,
O tempo
Do verbo singular,
O templo do verso
Feminino.

Do meu seio
Em taça, continente
E conteúdo,
A espera eterna,
Do toque do cavaleiro,
À procura
Dos mistérios do Graal.

Alumbrada cena
Num canto da memória,
A rara fantasia
Sob o luminar das tochas
E dos dez círios,
Do lustro,
No punho do lacaio.

Viajo,
Sou plena,
Na poeira dos caminhos.
Testemunho
O raiar do dia.
Na taça intocada,
Do grande astro,
Forjada em ouro
De mil sóis.
E nos anéis niquelados
Em prata,
Empalidecem as estrelas,
Uma a uma,
Deixando rastos.



A FADA E O CAVALEIRO



Não queria eu
Despetalar uma rosa vermelha
Sobre o teu corpo vencido.

Nem recolher
Ainda que, com carinho,
O linho perfumado
Das tuas vestes
Largadas a meio caminho.

O que eu faria
Do teu cavalo alado
Com o qual me visitas
Obrigando-me a voar,
De estrela em estrela,
Sob um céu desenhado.

Ainda há
Colada em ti
A minha sombra
Alma penada,
Criatura elementar
Tristonha fada,
Sonhando cavalgar
Pela vida, longa madrugada
Carregando num cristal
O coração prisioneiro.

Viagem no tempo errante
Por desertos e oceanos,
Reais por um instante:
Uma fada e seu cavaleiro...

19 de março de 2008

Meu desejo


Lançar-me ao mar sem medos, sem receios
Esse que invade, inunda, que consome.
E nesse abandonar perder o nome
Nos ventos, oceanos, devaneios.

Se quando me lançar em toda parte
O meu desejo vão, a minha sorte
Seja escrever num sopro, em qualquer arte
Que possa me guardar, eterna e forte

Recortes do meu ser na viração
No que restar de mim, qualquer canção
Levada pelo vento em maresia.

E diz de mim num verso e logo passa
Se tudo cai no tempo e sua devassa
Que o amor guarde meu nome na poesia
.

18 de março de 2008

Do sal e do mel



Eu sei do sal
Que habita a minha boca
A me lembrar, casual,
A ilusão.
Eu sei do fel
Que volve em pétalas rubras,
A solidão.
Cruel, eu sei da vida
Apagando as luzes
Até o final.

Eu sei do sal,
Do mal maior que o mar,
Do amor sem rumo,
Errante a nau.
Mas, eu sei ainda,
E além do pranto
Da noite,
E o negrume,
Da fogueira acesa,
À prumo,
Descerrados véus.

Eu sei do mel,
Secreto e meu,
Exata fórmula
Que brota das almas
No encontro,
Mágico encanto,
Total.
Eu sei do mel
Que nasce da garganta,
Profundo,
O cântico dos deuses
Nos mortais.

Eu sei, eu sei..
E os risos se misturam
Aos prantos,
Num único rio
Caudaloso espanto,
E as velas do desejo
Se erguem em torres,
Contra os quatro cantos
Dos vendavais,
E as tormentas se revelam
Das flores, o perfume
A mais.

Eu sei,
Não há final
Para os sonhos,
Eternos, desmedidos
Que são.
Eu sei
Das memórias tatuadas
Nos corpos que habitamos,
Palco de agonias
E vesperais de encanto.

Eu sei, afinal,
Que construímos, trôpegos,
Loucos,
Inverossímeis catedrais.

16 de março de 2008

Rosas loucas


A vida num errante desejar
Uivos de vento
O galope no tempo
Polindo a eterna pedra do viver
A ira nos flancos
O cio dos anjos
Querer, querer, querer...

Um corpo sobre o corpo
Decifrando o mistério das estrelas
Num desatino sem freios
Despir o linho da  noite
A pedra do medo
A palavra no porto do prazer
Tocar o impossível
O transitório momento
A claridade do ser

Morder o impalpável
A luz , a água
Sorver a lua derramada
 lençol de pura prata
Colher as pétalas de papel
Das rosas loucas
Navegar num mar
De mel e cal
Decifrar os sonhos dos amantes
Viver, viver, viver!...



Por amor à palavra



Estou na
Antecâmara
Da palavra,
Estou na véspera
Desse verso vago
Que me invade,
Sem ter pressa.
Num labirinto,
Sem saída,
Persegue-me.

Estou no segundo
Antes,
Da palavra,
Estou no prenúncio
Desse grito,
Que me grita
Inteira,
E pelo meio
Me devora,
Numa solicitude calma.

Estou no pretérito
No ontem,
Da palavra.
Estou no âmago
Dessa palavra que me ama
De um amor sem saída,
Que se vive, fere
A minha liberdade.
A palavra me ama,
Com ganas
De morte.




13 de março de 2008

Sonho

Num quadro de sépia e aguadas,
A lua em vias de parir um astro,
Desenha um rastro de estrelas.
Pasma, eu me divido

Entre duas fases,
A de ser sozinha
Ou de sonhar-te,
Ansiada madrugada,
Escarlate no negrume da noite.
Meu sono é sonho,
Densidades,
Sou eu a lua
Prenhe de loucuras,
Sou eu a nua e fantasmagórica entidade,
Desvanecendo em dia
E realidade...

11 de março de 2008

Fábula

Colhe de mim
O que importa,
Última, a flor de solidão
Prodigiosa.
Invade as minhas terras
Como um portento,

Antes que se desfaça
A carne, palavra tenra,
Em lavas de agonia,
Em rio líquido.

Eu tento,
Olha-me de novo,
Secreto gesto.
Nas lutas inglórias
De um só corpo
Refaço o milagre
Em minha boca,
O gosto inigualável
Do desejo
Que subjaz, eterno.

Corpo, ilha e terra
À espera do oceano,
Num tempo mítico,
Futuro,
Sede interior
Das grandes águas,
Cíclicas.
E o dono do tempo,
A embalar cirandas

Cavaleiro, argonauta.
A mão solene
Cravada sobre a pele,
A recolher de mim,
Últimas vestes.

9 de março de 2008

Não é só pranto



Preciso dizer-te não é só pranto
A letra da canção que trago à margem
Dessa palavra amarga que às vezes canto,
Tenho alegria que me dá coragem

Não trago sonhos vãos presos ao peito,
E nem é só de dor o meu lamento
Componho esse soneto de outro jeito
Das cores do arco-íris e, me deleito.

Senhora, menina, não tenho idade
Quando visto a capa da fantasia.
Sou luz da lua varando a noite,

Sou ave branca que rompe o dia
Cavalgo um alazão, lhe dou açoite
E acordo embriagada de saudade!...

29 de fevereiro de 2008

Cartas à noite

O espaço cavado em breu
Da melancolia,
A vida envolta em nebulosas,
E os astros ferozes no encalço.
Altos em sua escalada nos céus,
Velozes.
Aperto sob a mão,.
Discreta , essa dor no peito.
Nem é desenho de ferida,
Nem exala à mel
O sangue das estrelas.
Apenas arde,
Denuncia ao longe
Querer que nunca acabe,
Fogueira.

Demasiado tarde,
Arrumar o caos,
Iluminar o labirinto
Como se bastasse a luz
Que salta em golfadas
Na respiração da palavra.

Aqui me detive,
Nesse êxtase e aflição.
Eu sinto o cheiro que exala da madeira
Quando a faca mais lhe crava,
A carne.
E tanto mais brilha
O olho da paixão,
Na tez azulada
Da noite alta.
Abraço a escuridão
Nas brancas pontas dos dedos.

Cortamos pelo meio as dores,
Atravessamos as noites,
Nas luas viúvas de sóis postos.
Impossível encontro.
E no entanto,
O gosto esperado no canto
Da boca secreta,
Promessa,
E da mão entreaberta
A ternura lavra seu caminho,
Sem pressa.

18 de fevereiro de 2008

Palavra sem pudor, palavra bruta














Palavra sem pudor, palavra bruta

A pura flor que nasce da ternura

Feridas do amor na carnadura

Na alma, o estertor da sua luta.


Da vida e o seu furor maior mistério

Eu sinto o marulhar do som, o peso,

Farol em alto mar, imenso, aceso

E a boca de sentir no sal, minério.


E sempre hei de sentir no ar o fel

Se a dança das estrelas risca o céu,

Adoço o sal do mar na minha boca.



E a língua da saudade mais se apura

Assanha um mal de amor que não tem cura

Senão em seu calor palavra louca.

15 de fevereiro de 2008

A solidão das mulheres poetas



Eu
Faço versos
Como quem ora,
Desfiando o tempo
Esse infinito terço,
Entre os cinco dedos
Dessa minha mão.
Como essas notas
Que eu ofereço,
Pequenas contas
De uma emoção.

Eu
Faço versos
Como quem chora
O pranto eterno
Mãe da noite escura,
Que perde o filho
Quando rompe o dia,
E em desespero
Vê chegar a aurora.

Eu
Faço versos
Como quem mora
No leito triste
De uma câmara fria,
Compondo um tecido,
Versos de agonia,
Neste curto espaço
Onde só cabe agora,
O aço,
A lâmina dura
Que em mim demora.

Dor que me carrega
Madrugada afora,
Numa viagem cega
Mal que não tem cura...


Inspirado em "Desalento" de Manuel Bandeira।


14 de fevereiro de 2008

Numa palavra





A alma,
Invisível, se revela,
Quando alinho-a
Paralela,
Aos contornos do sagrado.
Se esvazio-me das dores,
Desamores, querelas.
Se, num breve átimo,
Espasmo de tempo,
Pronuncio leve,
A palavra.
Folha sem destino
Ao vento, primavera.
Primeira estrela sem promessa,
Sem norte,
Na sorte de arriscá-la,
Etérea.
Fugaz como um pensamento,
Sem temor,
Perdê-la!