
Melhor que não me ames
Que nunca me reclames tua.
Que sejam murmúrios
A sua voz de vento
Na minha rua,
E essa espera infinita,
Tamanha.
Pois assim te sinto meu,
Por dentro.
Eu não te saberia assim,
Não fosse de sonhar
A tua mão rude e plena,
O aperto que me darias na garganta,
Antes do beijo.
Sabes bem o quanto vivo de inventar
Paixões a esmo
Nas tramas da minha secreta poesia,
Rede de versos,
O meu enredo,
O encanto, o encontro que não veio.
E a cada noite
Eu colho a flor da tua ausência
E quando a sombra das horas tardias
Me envolvem,
E eu esqueço,
Lapso dos sonhos.
Mas a inexorável madrugada,
A mesma que me devora em saudade,
Reabre em seu real cenário, o dia.
E sem tí,
Eu amanheço.
Reinvento os gestos
E na dor da matéria
Eu movimento o meu corpo,
Amante das esperas.
Presa de fragilidades tantas,
Dessas súplicas, dessas vestes,
Eu me cubro.
Empunho o discurso da palavra,
A veemência de dizer,
Meu grito,
O que chega a tí,
Brando sussurro.
O que prá mim é brado, torrente,
Manancial de água e pranto,
Onde me afogo
E me deleito
De ser escrava sem seu senhor.
Por conta desse amor,
Atormentado canto
Eu me detenho, e por séculos,
Me abandono
de desejar outros sonhos.
Pois a espera
É o próprio encanto,
Singular encontro,
Dedilhando lento
Um fado desamor.