17 de setembro de 2008

LANÇAMENTO: LIVRO DIGITAL



SACIEDADE DOS POETAS VIVOS
DIGITAL - VOL. 7
Convido-os a ler o 7º volume de SACIEDADE DOS POETAS VIVOS, um projeto incrível do site www.blocosonline.com.br e do qual tenho o prazer de fazer parte.
PREFÁCIO
A Saciedade dos Poetas Vivos Digital nº 7 aborda "Intimidades": amorosas, amigas, cúmplices, solitárias, reflexivas, amorosas. Como escreveu Martha Medeiros, uma de nossas convidadas da Antologia passada, "Intimidade é você não precisar verbalizar tudo o que pensa, é aceitar a solidão do outro, é estarem familiarizados com o silêncio de cada um. Intimidade é não precisar estar linda em todos os momentos, não precisar ser coerente em todas as atitudes, é rirem juntos de uma história que só eles conhecem o final". Momentos íntimos com gente, com livros – as obras de cabeceira –, com a natureza ou com animais de estimação. Intimidade com a palavra escrita, com o silêncio do papel em branco, com a fala do gesto.
O e-laborar e a construção da intimidade estão presentes nos dezessete poetas deste volume, de forma mais sutil e indireta, ou de forma mais visivel e declarada: Carlos Seabra, com seu olhar minimal e abissal do mundo; Débora Bueno, com sua textura delicada; Jania Souza, com seu vôo existencial; Janice Mansur, com seu lirismo inquieto; João Nilo com suas singulares percepções; Leninha com sua desafetação cativante; Mônica Banderas, com sua poesia em forma de blog-diário; Sandra Fonseca, cuja poesia nos lembra blues-baladas; Sandra Souza, com um estilo incisivo e claro; Silvio Olivio, com seu texto de efeitos impactantes; Soninha Porto, com seu lirismo agridoce; Thaty Marcondes, com sua intensa passionalidade; Vera Casa Nova, com seus afetivos abraços – dados e não dados; Xenïa Antunes, com sua lírica desconcertante e rebelde.
Na presente edição trazemos três convidados muito queridos e especiais: Alice Ruiz, uma das maiores haicaistas brasileiras, exímia em captar a alma das coisas e dos momentos fugidios; Ulisses Tavares, humorado, ferino e extremamente crítico, como poucos poetas o são atualmente; e Mauricio Gonçalves – bela surpresa para quem só o conhece até agora como ator –, cuja poesia, repleta de referenciais e teatralidade, oferece um verdadeiro banquete de sofisticados sabores.
A intimidade, para além da busca pela aproximação, é também internidade, e revela-se no trato íntimo do ser com ele próprio, em toda a gama de possibilidades reflexivas que afloram e desabrocham em seu interior. Neste sentido, podemos entender tal internalização como substância-essência de um entre, de uma relação envolvendo alguém e o outro ou alguém e a coisa observada, e até, em horizonte muito mais amplo, um entrelugar tenso por estar compreendido entre a finitude da vida e a infinitude da morte, como tão bem divisa Joaquim Cardozo em seu poema "O Um e sua intimidade", do qual reproduzimos fragmentos e com o qual finalizamos esta nossa introdução:
No Um está o ser isolado e está o Universo. Não é naquele ser, porém, nem neste Todo Onde reside a sua intimidade. (...)A sua intimidade é a infinita singularidade Do só, a infinitude da concentração do ser (...) A intimidade do Um está no valor da função Que na sua origem, num breve, infinitamente instante, liturgicamente Oscila eternamente entre + 1 e – 1. Entre os dois, no entanto, não há tempo zero – A intimidade do Um está no ponto antesdepois Do teu prazer, Mulher!Está no ponto AntesDepois da Morte.

Urhacy Faustino e Leila MíccolisEDITORESLançamento oficial: 17 de setembro de 2008
Créditos:
Capa: Vande Rotta GomideTítulo: Eduardo Feijó Netto MachadoSeleção de textos: Leila MíccolisWebmaster: Urhacy Faustino

1 de agosto de 2008

ADÁGIO PARA DEZ VIOLINOS MARINHOS E UMA GUITARRA DE SAL*


* Inspirado em “Concerto grosso per I New Troll” – Track 03 -



Paisagem de portos em ruínas, a realeza
Da sombra de um navio, um mar imenso,
Sem pontos marcados, sem farol
Que não seja a luz de uma vela acesa.

Um homem ao mar, uma mulher-sereia
O cântico monótono dos cascos nas ondas
O apelo sem rumo das estrelas
Canção inútil de acordar os deuses.

Netuno escondido na trilha dos espelhos
De mapas perdidos, de infinitas águas,
A dor nos espaços cortados em cem luas
E o grito demente das flautas no vento.

Mar e lua e as sombras nuas a se desmanchar
Os corpos como peixes nas espumas
Os olhos imersos em sal e poesia
As costas lanhadas nos beirais de areia.

O amor urgente riscado em outro mapa
Fora dos círculos ideais, fora das órbitas
Dos astros magistrais e dos seus reinos
As almas navegando a mesma rota.

E os olhos do oceano, as vistas grossas
Vertendo águas eternas, o inumerável momento
E as línguas como loucas desejando a fonte
E o barco do desejo desafiando as ondas.

As mãos, escamas, suas asas e caudas
Reconstruindo a arquitetura dos sonhos
Os gestos na tempestade repartidos
Em todos os abraços às portas da loucura.


Cessou a tempestade não tarda a aurora
Em seus cristais de azuis abrindo os céus
Os vultos transparentes se unem à paisagem
O sol invade os espaços como um portento.

Em toda a extensão da praia há poemas de amor
Escritos à dedo, as letras desconexas,
Canções profanas espalhadas entre vestes
De linhos e algas brilhando em arabescos.

Sandra Fonseca

13 de julho de 2008

PORTO ABRIGO



Recebe a minha alma navegante
Cansada de vagar de sonho em sonho
E o corpo a levitar tão delirante
Lançado a um mar imenso que suponho.

Um corpo de mulher, um barco à vela
No ardor de atravessar dias e noites
Em nau de insensatez, a caravela,
Alheia aos ventos maus, aos seus açoites

Se nada além dos mares me importa
Senão as tuas mãos abrindo a porta
No abraço sem igual de um cais amigo

Que sejas um farol, a luz mais forte,
Brilhando além do mal, estrela e sorte,
Pra ser depois do mar meu porto abrigo.


Sandra Fonseca

27 de junho de 2008

SEMBLANT


óleo de Teresinha Canini (a Tenini)



Como quem parte
Permaneço,
Como quem esquece
Adormeço.
Escrevo delicadezas
Enquanto mordo
A raiva e o gozo
Da palavra.

Amanheço insone
Enquanto dorme
O meu sonho.
A minha alegria
É essa fantasia bizarra.

Como quem sabe
Desconheço,
Como quem erra
Tropeço.
Eu trago uma cicatriz
Risonha.

Anoiteço a vigília,
Faço das tripas, coração,
Eu danço um tango
No arame das minhas ilusões.

Vou partejando
O meu cortejo de desejos
Mal disfarçados de mágoas,
Enquanto a noite dorme,
E sou a lua
Cavalgando o ouro
De um cometa.


Sandra Fonseca








15 de junho de 2008

FILME DE GUERRA II

Oleo sobre tabla y collage de papel de aluminio
Medidas: 70 x 50 cm
Autor
:JESUS CANOVAS JUSTO *


Para o menino Africano...


Se tu soubesses

Menino esquecido

Que eu não te esqueço

E faço por ti

Uma oração.

Peço aos anjos-meninos

Que te protejam

Da solidão.

Se eu pudesse

Menino triste

Inaugurava

O teu sorriso

Que há de ser

Tão bonito

Quanto o ébano

Da tua pele.

Sem que pedisses

Menino lindo

Eu embalava-te

Em minhas mãos

Dava-te um seio

Alimentava-te

Acarinhava-te

Nessa canção:

“Dorme menino

Do meu coração,

Dorme anjo,

Mamãe vai te ninar...”

Se eu conseguisse

Menino-dor

A ti chegar

Antes da sorte

Abrir suas asas

Estranha e forte

Ao teu redor.

Eu lutaria

Te protegia,

Se precisasse

Até a morte...



Sandra Fonseca




*Artista de BARCELONA, CATALUNYA, que encontrei neste maravilhoso blog:

www.jesus-creaciones.blogspot.com

Gracias por el permiso.


Duerme negrito- Mercedes Sosa - Mama Tinc Gana

8 de junho de 2008

UM ANJO, UM PROMETEU, UM PIRILAMPO



Minha alma anda trôpega
Como quem conta as horas
Nos patas dos cavalos
Que correm com a lua
A viúva dos dias,
A louca do vestido branco
Aquela que borda de estrelas
A sua cauda de espantos.

Minha alma anda sôfrega,
Como quem organiza
A noite dos prantos,
A fila das carpideiras
E seus xales de breu
E seus tules de pranto.

Minha alma anda tonta,
Pisando no avesso do céu,
Despindo pássaros noturnos,
Cobrindo o dorso dos fantasmas,
Roubando a luz aos anjos,
Fogo de um Prometeu,
Néon de pirilampos.

Minha alma anda surda
Buscando as conchas,
Aquelas que jorram pérolas,
D suas feridas.
Os sons de algum fauno,
Um alaúde,
Trompa sagrada de sereia,
A vaga poderosa e feroz,
Onda milenar.

Minha alma anda nua,
Na ânsia de encontrar
Nalgum recôndito,
Além e a mais
Dessa minha dor,
Angústia de ser mortal,
O milagre dolorido
De um poema.

29 de maio de 2008

O PERFUME

Meus versos por aí cortando espaços

Perdidos como aves sem um ninho

Buscando no calor dos teus abraços

Um pouco mais de luz no meu caminho.



São barcos no oceano sem um prumo

Minh’asas de voar por sobre as águas

Que os ventos da saudade dão o rumo

No meio desse mar de tantas mágoas.



Palavras na corrente, maresia,

Sabores e aromas da poesia

Levando pelo ar o meu perfume



Na ânsia de buscar a cada instante

Que seja magoado, delirante,

O fogo desse olhar que atiça o lume.


Sandra Fonseca

23 de maio de 2008

De que são feitos os sonhos?




De que são feitos os sonhos?

Do sangue,

Da essência, a mais divina.

Da pele,

Dos desejos

Os mais humanos

Da letra

Dos destinos

Mais estranhos.

Da tinta

Mais antiga

Em pergaminhos.

Da luta,

Da dureza

Dos caminhos.

Da língua dos anjos,

E da ira

Das espadas.

Da ponta

Em ferro

Das chibatas.

Do canto,

Lamentos

Das sereias.

Do pranto

Da eterna

Lua cheia.

Das cores

Da primavera

Da transparência dos cristais.

Das flores etéreas

Do submundo

Dos astros.

Do brilho

Descabido

Das estrelas.

Dos anéis

Dos segredos

Das lendas.

Da poeira

Da cauda

Dos cometas.

Do encanto

Das palavras

De um poeta.

De um concerto

Que compomos

Às duras penas.

Disso tudo

E algo mais

São feitos os sonhos.


Sandra Fonseca

14 de maio de 2008

MÃE D’AGUA



Deságuo mágoas

Em rios,

Na correnteza

Afloro, flor de ser levada

Mar de incertezas,

O canto do rio

No seu pranto

Me fala.

Segreda essa certeza:

Estou sozinha,

Ninguém me salva.

Repete como um mantra

O cântigo da perdição,

Canto do medo,

Pulsar estranho,

A solidão nas veias

Correndo lenta.

No entanto escuto,

Eu me calo,

Mas não me entrego,

O lábio treme,

O vento lambe os meus cabelos,

Antes das águas,

E quando me devoro em águas,

De corpo e alma,

Deságuo no grande oceano.

Entre as almas

Dos marinheiros,

De sonhos afogados,

E as sereias, sílfides,

As iaras,

Sou guerreira desses leitos,

Correntezas,

Nesta voragem de vida.

Entre pedras

E seixos e algas,

Sou líquida,

Infinita,

Mãe d’agua.


Sandra Fonseca

9 de maio de 2008

A coisa da palavra




Barco, coisa,

Homem,

Tudo é estático.

A pedra,

A mão,

O raio de sol.

Nada carrega o rumor,

O viço,

A respiração.

É tudo mudo,

Desprezado,

Sem a poesia,

Na palavra.

Então a ave sabe

A emoção do vôo,

A chave abre a escuridão

Na clave de sol,

Na canção.

O braço é do mar,

A onda na rebentação,

O olho chora, a maresia,

A noite morre nos braços

Do dia,

E nova a sinfonia,

Novo o sangue na palavra.

Novo o dia.

Se morre a vida,

Na dobra da esquina,

A dor do outro,

O louco.

No oco da palavra germina

Um poema.

Um poema

Como uma coisa

De asas.



Sandra Fonseca


2 de maio de 2008

Madrepérola, madrugada




A noite é alta
Imponente.
E o que me salva
O teu corpo de ave
E o teu canto de sal,
Encanto e mel,
Enquanto a manhã,
Voraz em sua luz
Real em sua cintilância
Me devolve o dia
E a sua nova dor,
Extrema e nova,
Página revisitada.

Quem te entenderá mais?
Senão o meu espanto,
Feito de querer
E de ausência.
Um olhar perdido
No tempo e na distância,
O meu olhar
No seu.
E o tempo é nada,
Se guardas a minha caixa
Secreta,
Repleta de palavras,
De pequenos gestos,
Como a minha mão
Que pousa leve
De tule e emoção
Sobre o teu dorso.

Se pousa a noite
De carne
E esplendor,
E manto,
Sonho de novo
Cavalgar-te.
Teu corpo de água,
Feito de pranto
E de asa.
Compomos poemas,
Sangramos os mares,
Tocamos as luas
Em seus mágicos quadrantes.
E somos num instante,
Estátuas dos amantes,
Alabastro e pedra,
Madrepérola,
Madrugada.

28 de abril de 2008

Bebi a lua



Bebi a lua

Entornada em pranto líquido,

Em filetes grossos

De prata.

Lívida era

A minha face,

E o vento acariciava

Os meus cabelos

De repente,

Transformados

Em hastes

Ferindo pontas de dedos.

Viajei na madrugada

Libertei fantasmas,

E encontrei

A magia das mandrágoras,

E quando cortei

As dores pela raiz,

Mais alto elas choraram.

Jogada em leitos

De rios de quimeras,

Sou afluente de tudo,

E me encontro,

Se devoro as flores

Antes dos frutos,

Se sou ave,

E aspiro o pólen,

E sorvo o néctar,

E de gritos

Eu preencho

Os meus ouvidos internos,

E nas línguas de fogo

Do lirismo,

Eu me queimo.

27 de abril de 2008

SÓ MEU, ETERNO


Eu tinha um coração

Que era puro fogo

Amo a solidão,

O fundo poço

Onde tateio

Teu braço, uma perna

Um lábio morno,

A sussurrar palavras

De um verso indecoroso,

Lascivo, louco.

Sonhei encontro

No que foi saudade.

O que sou sem ti

Senão o falso,

O pseudônimo,

A invenção do verbo,

Secreto gesto,

Inominável na sua boca.

E o que era eu

Senão reflexo

De um teu qualquer desejo,

Se habitei hangares

Onde habita a lua

E a nudez patética

De algum sonho.

E ainda hei de habitar

Nalgum cenário,

Clareiras que abrirei

Entre o alto mar e o meu deserto,

Melhor que seja assim,

No único modo de ser

Só meu,

Eterno.

Sandra Fonseca

20 de abril de 2008

Tambores



Se ainda há
O milagre dos tambores
E ressuscitam os mitos
Das florestas
E as almas antigas
E despertam os homens milenares
Na festa dos sentidos.

Se ainda há
O toque febril dos dedos
Na pele dos tambores,
A canção dos desejos
Mais ínfimos.
E os segredos
Correm dispersos
No rio dos ventos.

Se ainda há
Música
Em fragmentos,
No galope furioso
Dos tambores,
E as almas sem rumo
Sem etnias,
Sem encontram
Na dança do acasalamento.

Se ainda há
A magia dos tambores
Enredando
O encontro dos amantes,
No apogeu de um bolero
Alucinante.
Se ainda há canção
No ritual dos prazeres,
Nos gemidos
Na escuridão,
E os corpos já não são corpos
Em união,
Em sua convulsão,
Já são tambores!

Sandra Fonseca

Do desejo




"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto ..." Olavo Bilac



É da incerteza
Que surge
A minha busca.

De um canto qualquer
Surge o riso,

E o encanto.

De um nada qualquer

Sobrevivo.

Refaço-me de versos

Aprumo o meu barco

No rumo do universo,

Fujo à deriva
Num mar de sargaços.

Eu anuncio o dia,
Quebro as amarras

E solto os lastros da poesia,

Eu me invento.
Sou pensamento
E sou traço
Rabiscados nos muros.
Não mais me escondo
Atrás das mãos
Sobre os olhos,

E dos ouvidos moucos,
Eu grito.

É tão pouco

E fugaz

O momento,

Mas meu desejo
É imenso,
Denso,
Rebordado de estrelas,

Tantas quantas eu possa

Bebê-las.
E da janela
De onde as ouço,
Eu pinto na aquarela

Das manhãs,
Um breve rosto




Sandra Fonseca