9 de março de 2011

POR ANAÏS NIN



Escrevo,
Respiro.
Escrevo tal a necessidade vital
Que a experiência traduz
Escrevo,
Preciso,
Tal como o mar precisa
Da tempestade
E o escuro
Da luz.
Reluz
O ouro da palavra
Na busca incessante
Do maravilhoso
Do infinito que toca
O espaço,
As coisas.
Dão-me febre
As palavras,
Iluminação,
Graça.´
E quando essa música
Para na minha cabeça,
Então remendo meias,
Colho frutos,
Mas, sinto
Que não vivo.



2 de março de 2011

TU, OCEANO



Não

Me importo mais

Que te demores

Se te sinto

Cada vez mais

Fado, destino.

Não desatino mais

Em madrugadas vermelhas

Em luar

De luas pálidas

Perfeitas

Se te tenho em cada istmo

De um desejo urgente.

Se o tempo vai

Machucando coração

Bocas

Veias

Abrindo rios

Torrentes

Cachoeiras

Que se vão desaguar

Na vastidão dessas águas

Onde habitamos

Eu, mulher do mar

Tu oceano.

17 de fevereiro de 2011

PAPÉIS E ESTRELAS ROUBADAS



Tortuosos
Os caminhos de dentro.
Seguir a fantasia
O horizonte sem alcance
O intangível corre
Com a ilusão.
Há um cansaço
No vidro dos olhos
De tanto rodar aventuranças
E filmes antigos.

Eu peço
Licença de não sonhar
Momento isento
Entre o azul do céu
E um negro tormento.

Tenho uma gaveta
De papéis e estrelas roubadas.
Eu tenho mil disfarces
Para o mal de sonhar.

O silêncio fechado num leque
De poemas
Eu abro num rompante.
Nele, eu silencio
Paisagens
Corpos
Luas que nunca existiram.
E a alma corre
Seu caminho de dentro
Lavra em seu delírio
As pedras brutas
Do sonho.





Sandra Fonseca

13 de fevereiro de 2011

É AQUI



É aqui
Onde toco as palavras
Que sei de mim.
Alguma certeza,
A alma contra a luz
Do dia,
Os ossos, a carnadura.
A leveza do ouvido
Colado à brisa,
A canção que só a mim
Cabe silenciar.
E a boca pausada
Se movimenta
E articula a beleza
Secreta, sedenta,
O mistério da palavra.
Ouvi,
A poesia me canta
Por dentro
Como um pensamento
Como um coisa imorredoura,
Sangramento,
Sem causa,
E sem pausa,
Arrastamento.
É aqui
Que eu encho os meus olhos,
De absurdo
E de espanto,
É aqui que eu fecho os meu ouvidos,
E canto.

Sandra Fonseca

18 de julho de 2010

SETEMBRO





Sei do meu tempo
esse rosto breve e moço
as lavras arrastando sonhos
e os subterrâneos
da semente
preparando setembros.

Penso o verde rio
alisando o corpo
da mãe das águas
e os mares tingindo
em azuis os barcos
e as sereias.

A areia branca
de rendas e teias
enfeitada de conchas
e a chuva das pétalas
contornando o dia.

Penso setembro,
manhã de nostalgia,
setembro foi ontem,
setembro é uma esperança
pintada de branco.

Setembro não vem.

4 de julho de 2010

ÁGUA SOBRE A PELE




Jorra
A fonte alta
Sob a pele
Chuva
Chovem as luas
Fagulhas
Pontas de facas
Estrelas nuas

Suam
Melíferas espumas
Poros dilatados
Mergulham
Pontas de agulhas
Adentro
A alma
Despe-se
De seus vestidos de águas.
O corpo sucumbe
Íncubo tormento
Líquido
Sagrento
Seu branco leito
Navegante
Afoga-se
O sexo dormente.
Retorna
À fonte.

18 de abril de 2010

O LIVRO DE MAGDA LUNA PAIS


Lançado pela editora Temas Originais, o livro da amiga Magda, “Vida na Internet” . Como grande leitora que é, Magda traça suas impressões sobre a realidade virtual que nos insere a todos।


Sinopse: “Vida na Internet” é o primeiro livro autónomo de Magda Pais, que compila as experiências que a autora viveu, ou que lhe foram relatadas por terceiros, enquanto internauta e frequentadora assídua de blogues e sites de literatura, dando-nos a sua visão pessoal das realidades sociais associadas. Encontramos ainda, neste livro, algumas explicações técnicas, dadas de forma acessível, permitindo, ao leitor, esclarecer dúvidas ou levantar questões sobre as quais nunca terá pensado.

Magda Luna Pais nasceu em 1969 no Barreiro. É casada e mãe de dois filhos. Foi sempre uma leitora assídua, e nunca pensou em escrever até encontrar o site www.luso-poemas.net que veio alterar parte da sua vida. Deste site, onde exerce funções de moderadora, e do qual foi administradora, saíram novos amigos e ideias para este livro. Tem o seu próprio blogue http://stoneartportugal.blogspot.com, onde, para além dos seus textos, divulga textos de outros autores. Participou na Antologia Luso-poemas 2008, editado pela Edium Editores e na colectânea “A arte pela escrita”, editada pela ArtEscrita.

Saiba mais em:

Stoneartportugal - Pedra Filosofal

1 de novembro de 2009

EU VEJO O MAR




Durmo
o sono injusto
da espera
e o sonho repetitivo
de um outro dia.
Sei agora o que sou
sem lembrar
quem mesmo era.
um poema me tocou
ao centro da fronte
defronte a alma
E me roubou
noites tantas
fontes
dores que já não doem
ardores que já não desassossegam
em barcos que já não navegam.

O dia se iguala a noite
e tudo equivale a nada
o sol é lua apagada
e sei que já não me lembro
da alma antiga que tenho
correndo por essa estrada.

a madrugada vai alta
a lua de papel de seda
jaz num charco atirada
e eu, pensei num poema
feito de luz e sombra
de sutileza
e rumor.
Prá dizer que nunca sei
se essa voz que canta é minha
se é minha a que pranteia
por fim se sou o que escrevo
ou se escrevo o que sonho.

o que sei, eu sei do sonho
e nem sei nada da vida
se o que sei é o que suponho
eu não sei nada de mim.

um coração histrião,
uma flor despetalada
boiando em rio sem fim.
doida, a alma
na proa da nau sem vela,
a vida é terra
é pura pedra
e eu vejo o mar.

18 de outubro de 2009

Saciedade dos Poetas Vivos Digital nº 9



Saciedade dos Poetas Vivos Digital nº 9 versa e verseja sobre as QUATRO ESTAÇÕES – os ciclos da natureza e/ou a comparação deles com as fases humanas: o começo (aflorar/desabrochar), o auge (a expansão e o climax), o declínio (ocaso/reflexão) e o fim (frieza/tristeza) de uma paixão, de um sentimento intenso. Cada uma, em separado, narra um capítulo; juntas, retratam às vezes uma vida inteira, em uma espécie de cena contínua de uma obra aberta, de um work in progress. A idéia de desenvolvermos esta temática surgiu através de uma pesquisa que realizamos há algum tempo sobre Vivaldi. O compositor d' As Quatro Estações – sua obra mais famosa – expressa musicalmente os fenômenos da natureza e/ou os períodos sentimentais a eles metaforicamente equiparados: o eclodir/agir do primeiro impulso, a alegria-plenitude, a dúvida/reflexão e o término de uma relação afetiva. Nasceu portanto da música a poesia deste volume.

Em todas as artes, as estações sempre despertaram obras maravilhosas; na poesia elas apareceram milnearmente nos kigos, que são o pilar das construções dos haicais tradicionais, e que se constituem por uma palavra ou expressão que sugere uma estação ou época do ano. Escreve Teliti Suzuki, Conselheiro do Centro de Estudos Japoneses da USP, no prefácio do livro "Natureza - berço do haicai - Kigologia e Antologia", organizado por H. Masuda Goga e Teruko Oda (1996):

O preceito budista de que tudo neste mundo é transitório aparece na literatura japonesa desde seus primórdios, mais exatamente, na primeira antologia poética compilada no século VIII.
Nos versos encadeados (renga e haikai renga), essa transitoriedade é expressa pelos kigo (termos de estação) que remetem às estações do ano ou a fenômenos sazonais e que devem constar obrigatoriamente da estrofe inicial do encadeamento, denominada hokku . Este hokku, por sua vez, passa a constituir um gênero independente a partir dos fins do século XVII, justamente quando o haikai renga da escola de Bashô se consolida com sua poética genuína.

Dia de primavera —
Os pardais no jardim
Tomam banho de areia.

Onitsura

O rio de verão —
Que alegria atravessá-lo
De sandálias à mão.

Buson

Em qualquer lugar
Onde se deixem as coisas,
As sombras do outono.

Kyoshi

Sem guarda-chuva
E sob a chuva de inverno —
Bem, bem!

Bashô

Fonte: Antologia de haicais japoneses - http://www.kakinet.com/caqui/antojap.shtml

Contemplar a natureza sempre foi motivo de aprendizagem, reflexão e legado de experiências. Na nossa Saciedade dos PoetasiVivos, vol. 9, apresentamos o movimento das estações através de variadas propostas estéticas, na voz de dezessete poetas contemporâneos: Clevane Pessoa, Débora Siqueira Bueno, Dora Tavares, Jania Souza, Jaqueline Serávia, João Nilo, Márcia Sanchez Luz, Mariana Pinto, Pam Orbacam, Pedro Du Bois, Regina Vilarinhos, Sandra Fonseca (http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/obrasdigitais/saciedigpv/09/sandrafonseca01.php), Sandra Souza, Sônia Adarias Soares Bruno, e dos nossos convidados especiais: Celso Gutfreind, Elisa Lucinda e Wilson Bueno (este último com um belíssimo repertório de rengas, nesta Antologia).

Cada vez mais as estações do ano - pela ação predatória do ser humano e os consequente efeitos de estufa, principalmente - estão diferentes e mesclados: temos primaveras invernosas, invernos quentes, verões outonais, outonos primaveris. Porém, como "nos terrenos terrenos/ nada é definitivo", como escreve Celso Gutfreind, que a poesia venha reestabelecer a certeza de mudanças e a plena vivência dos climas e estágios da vida, sob todas as suas variações de luz..

Urhacy Faustino e Leila Míccolis
EDITORES

Lançamento oficial: 13 de outubro de 2009
(Dia Mundial do Escritor)
Créditos:
Capa: Vande Rotta Gomide
Título: Eduardo Feijó Netto Machado
Seleção de textos: Leila Míccolis
Webmaster: Urhacy Faustino

2 de outubro de 2009

NASCENTE

Num veio cristalino

Um fio d’agua

Se pronuncia

Rompe o ventre

A vastidão da terra.

E um rio logo corre

Célere, vigoroso

Cavalo de água

No verde dorso da serra.

Seus fios de teia

De renda molhada

Seus passos de fera

No fundo das grotas.

Amansa cantigas

De amores e tempos

De luas meninas

Planícies e ventres.

Um rio serpenteia

Cá dentro da mente,

Um rio de versos

De lendas e lavas

Desceu num galope

Sem rédea

Nem freio.

Um rio

Um poema

Surgiu de um grotão

De um vão

De uma lavra.

Rompendo os limites

Os véus do desejo

A língua, o silêncio

E a sina dos medos.

Um rio

Um espelho de águas

Enchentes,

Vazantes, e lagos

E mares

Saltando os altares

Profanando as gentes.

Um rio

Um braço

De mar desgarrado

Correndo liberto

No leito das veias.

Descendo as montanhas

Os vales, as serras

Nasceu de repente,

Em meu corpo

De terra.


Sandra Fonseca


27 de setembro de 2009





Cobrir de falso linho

A ilusão

A carne.

Desmedido

Sangra o coração

Estranhas gotas

Passionais da fantasia.



Carne

Poesia

O que é mesmo verdade?

Há vestígios de mim

Nesta arte

Alegoria

E culpas desenhadas

No meu corpo triste.



O rosto

Arde.

Um milharal incendiado

Descendo o tronco

Até a pluvial

Bacia.

E, no entanto, olhos ígneos

E palavras

Irisadas confidências

Num canto da boca

Falam.


Falácias

Cantos comovidos

O que minto

Desavisada

Fazedora de versos

Verborrágica

Inconsentida

Ávida.



Inexato e febril

Meu corpo poético

Que atravessas.



Sandra Fonseca

14 de julho de 2009

ISSO

É um poema
Essa trama de veias
Essa coisa de asas
E de apelos.
Um galope sem freios
Um camafeu
Comovido o meu retrato
Ao meio
Do vidro partido
Coração.

Me sei assim
Isso
Poeta
A espera de outras fomes
Cuido da espada
Atravessada ao meio
Da jugular
Assim é dor
E desespera
Mas, não sangra.

Isso
Poeta
Vigio o poço
Onde atiramos os desejos
E ainda persigo os sonhos
Como ovelhas fugidias
Num pasto de estrelas.

Sempre à noite
Quando as palavras
Se carregam mais
De tragicidades
urgências.
E, com alguma arte
E possível ouvir-lhes
(Das palavras)
O som.

Isso
É assim.
Um verbo no início
Um poema
No fim.

3 de junho de 2009

24 de maio de 2009

DESIDERATA



Maldisse
O meu resquício de asas
A voz interior
Das mágoas
Que precipitam em mim
Essas canções.

Tantas vezes tentei morrer
Um tiro certeiro
No pé da minha palavra
Acerta o coração
Acende a solidão
Milhões de olhos-holofotes
Apontam
A mesma direção.

Despida a flor de bem-querer,
Secada a fonte
Nada demove
A força do verso
Que invade.
Chegado ao fim
Volta ao início
Uma chave na mão
E um baú de sentimentos.

Um fogo primitivo
No côncavo do gesto
E a espera infinita
Do homem da noite.


Sandra Fonseca

11 de maio de 2009

THALITA


É como um grande amor que nunca finda

Metades de ternura e desafio

A vida, uma grande festa por um fio

Correndo em teu olhar criança ainda.


Ventura é tua vida que começa

Certeza, o meu amor que te garante

Fazer do teu sorriso, esse instante

Impresso em minha vida qual promessa


A minha flor- de-maio, flor-menina

Há de viver num sonho a sua sina

Há de brilhar estrela de grandeza


Igual ou bem maior que o próprio sol

Um anjo ao teu redor como um farol

Protege a tua luz, tua beleza.



Feliz aniversário, Tita.

Mamãe ama!

11/05/09