14 de setembro de 2014
9 de julho de 2014
POESIA LÍQUIDA
Meu verso
Rompe veias, barreiras
Rio sem freios
Que me carrega
Sangra num fio
De água doce
Sangria louca
Que não se estanca
Palavra-lava
Que se derrama
Sem derradeiro
Ponto final
Meu verso
É vício
Ferida, carne viva
Renda e filigrana
É remendo às pressas
Veneno, promessa
Desengano
É mel na boca
Sorrindo, a louca
Sonhando a lua
Correndo nua
Desaba inteira
Rio sem freios
Que me carrega
Sangra num fio
De água doce
Sangria louca
Que não se estanca
Palavra-lava
Que se derrama
Sem derradeiro
Ponto final
Meu verso
É vício
Ferida, carne viva
Renda e filigrana
É remendo às pressas
Veneno, promessa
Desengano
É mel na boca
Sorrindo, a louca
Sonhando a lua
Correndo nua
Desaba inteira
Feito tempestade
Sobre a cidade
Meu coração
Meu verso
É lenda, profanação
De almas e sonhos
A fina dama, tonta
Obscena
Úmida, lânguida
Poesia líquida
Sobre a cidade
Meu coração
Meu verso
É lenda, profanação
De almas e sonhos
A fina dama, tonta
Obscena
Úmida, lânguida
Poesia líquida
Sandra
Fonseca
23 de março de 2014
LUA E SOL
Bastaria
Eu vestida de lua
E o teu ideal de ser sol
Sobre esses dias de frio
O tempo alucinado
Como animal sem doma
Sobre a delicadeza
Desse sonho
Sonhos
Enovelando o destino
Desatinos entre
Dois mundos
Bastaria
A breve pausa
Entre duas cenas
Tão reais
Meus olhos
Cerram-se nos teus
Num brevíssimo
Bater de asas
Nesta noite
Que passa como
Uma névoa.
Sandra Fonseca
11 de novembro de 2013
A CASA DO SENHOR DAS ÁGUAS
Não apresso a despedida
Não apresso o rio
Cultivo esse nó
Que se desata, eterno
E lento.
Lentamente cavalgando as luas
Delírio de astronauta
Coisas, gestos mínimos
Canto da boca
De onde recolho gota a gota
O sumo, a essência
Isso que não é lunar
E por ser movediço
E denso
Também não é terreno.
É onda
Quando se levanta
Arrebatando voraz
A fauna
A flora
A vida marinha
E se arrebenta praia
E se aquieta
Do seu próprio furor
Se se alimenta
Argonauta.
Domínios do mar
Onde resido
Onde a maresia
Chicoteia o vento
E lambe meus pés de areia
Passageiros.
Isso de que falo
Me arrebata
Avassala.
Se estende desmedido
Entre os mapas
Das omoplatas
E faz do ventre
Um ninho de gaivotas
Isso de que falo
É marulhoso, infinito
Tenso.
E eu não desejo
Escapar da sua casa
Senhor das águas
Mar esplêndido.
Sandra Fonseca
3 de julho de 2013
MEMORÁVEL
Pousou sobre
As suas coxas
Era um frêmito
Um alvoroço de plumas
Penugens
Pelos
A boca sabia
A sal
A pele roçava nua
Abriu-se dócil
A intenção do ato
O que a língua fala
E o desejo
Compactua
Ligeiros
Ágeis espasmos
Estertores
De prata e espuma
A noite testemunhava
Plácida bruma
A cena memorável:
Um pássaro pousado
No ventre da lua.
Sandra Fonseca
3 de junho de 2013
INCOMPLETUDE
Mãos de
navalha
Eu vou
Cortando rumos
Cortando a noite
Em luas,
Eu vou a esmo
Por dentro
Dos vendavais
Dos sonhos
Enraizada ao medo
Mulher de carne
E bruma
Mal disfarçada, nua
Eu vou
Atada ao dorso
Desse corcel
Feito de fogo
E asas,
Por sobre o oceano
Inteiro
Por sobre as casas
Eu vou
Ao léu
Abrindo
Terras estranhas
De fendas, mágoas
Tamanhas
De mim,
Estrangeira
Levando
Dentro do peito
Um coração voraz
O filho bastardo
De um sonho
Incontinente
Fugaz
Devorador de ilusões
Eu vou me repartindo
Ao meio
Sou parte
Cheia de espanto
E outra parte
Desejo
Eu vou...
Sandra Fonseca
14 de abril de 2013
COLADA À TUA LUZ
Como se fosses
morrer
Me calo em sua boca
Sôfrega, te respiro
Vida
E te desenhas
Rictus, sorrisos
Nas maças do meu rosto
Me calo em sua boca
Sôfrega, te respiro
Vida
E te desenhas
Rictus, sorrisos
Nas maças do meu rosto
Vasculho de novo
Sôfrega, repito
Teu fundo poço
O lamaçal, o fosso
Onde me guardas
Das palavras
Sôfrega, repito
Teu fundo poço
O lamaçal, o fosso
Onde me guardas
Das palavras
Colada a tua luz
Sou frágil
Inseto, transparente
Quase abjecta.
Insisto
Persigo os teus desertos
Faço do teu dorso
O meu atalho incerto
E atravesso a noite
Deslumbrada de medo.
Sou frágil
Inseto, transparente
Quase abjecta.
Insisto
Persigo os teus desertos
Faço do teu dorso
O meu atalho incerto
E atravesso a noite
Deslumbrada de medo.
A noite eterna e um
sonho
meu precioso diamante
Colada à luz do dia
Espero amanhecer.
meu precioso diamante
Colada à luz do dia
Espero amanhecer.
Sandra Fonseca
17 de fevereiro de 2013
Fogo e água

Tudo se envolve em chamas, tudo arde
Até o leito do rio aonde, náufraga,
Mergulho em estupor a minha saga
E vou me afogando sem alarde.
Num desatino, a alma em desalinho
O amor se move a esmo, pede um braço,
O ninho caloroso de um abraço
Envolto em línguas de águas e de linho.
Eterna ardência a sede dos teus mares
Eu sonho grandes asas sobre os ares
Imenso céu que sabe o mundo inteiro.
Teu corpo é quilha, casco de um navio
Saltando as emoções do mar bravio,
É fogo sobre água, barco, marinheiro
30 de julho de 2012
FLORES DE INVERNO
Para Tetê
São
flores de inverno
Que
te entrego
Ainda.
Não
consegui até
Hoje
reinventar
O
sol e nem
Um
canto de um
Beija-flor
cor-de-sol.
Mas
essas flores de inverno
As
construí pétala
Por
pétala
Geradas
das sementes
Que
plantamos
Na
seara
De
milhares de dias postos.
Morreram
tantas vezes
Morremos
tanto.
Mas
no milagre do tempo
Que
cicatriza as dores
E
levanta os dias sempre
E
de novo
Feito
uma eterna promessa
Da
vida
Essas
flores de inverno
Que
inventei
Germinaram
Como
pequenas e inenarráveis
Promessas
Palavras
de sol
Que
hão de fazer
Brilhar
tanto
As
páginas da vida.
Com
amor,
Naninha.
30/07/12
22 de abril de 2012
ESSA PEDRA
“No Hades, ele (Sisifo) foi condenado, tendo de rolar, por
toda a eternidade, uma pedra até o cume de uma montanha, que rolava novamente
sobre ele”. Hamilton, E.
Escrevo, às vezes
Com essa mão decepada
Da alegria
É que a poesia
Também é ira
Essa belicosa fera
Essa pedra.
Fere
E abre ferida
Enche-a de lodo
E sal.
Um mal
Acima do meu desejo
Meu mal
Meu beijo.
Súbito trejeito
Da alma
Coisa impalpável
Essa letra de fel.
Letal
Libido sem freios
Esse poema louco
Acéfalo cavalo de fogo
Correndo nas pautas
Nas patas insubmissas
Do papel.
Canta, sussurra
Grita
Essa ira
Essa belicosa fera
Essa pedra.
Sandra Fonseca
21 de fevereiro de 2012
TRAÇOS

Querer o mar ao largo do poente
Um barco a navegar, aberto o pano
Entre os azuis do céu e do oceano
E o vento a sussurrar dentro da mente.
São asas de gaivota na arrancada
Quando se elevam aos céus em mudo espanto
São patas de um corcel na atropelada
E as notas irisadas de um canto.
E o vento , o céu e o mar, a geografia
Desenham em meu papel, muda grafia
A letra da ilusão que eu mesma traço.
A vida é um poema comovido
Palavra por palavra em meu ouvido
E a ânsia de voar me aperta o passo.
Sandra Fonseca
22 de julho de 2011
POR AMOR À PALAVRA

Estou na
Antecâmara
Da palavra
Estou na véspera
Desse verso vago
Que me invade
Sem ter pressa.
Num labirinto
Sem saída
Persegue-me.
Estou no segundo
Antes
Da palavra,
Estou no prenúncio
Desse grito
Que me grita
Inteira
E pelo meio
Me devora
Numa solicitude calma.
Estou no pretérito
No ontem
Da palavra.
Estou no âmago
Dessa palavra que me ama
De um amor sem saída
Que se vive, fere
A minha liberdade.
A palavra me ama
Com ganas
De morte.
Antecâmara
Da palavra
Estou na véspera
Desse verso vago
Que me invade
Sem ter pressa.
Num labirinto
Sem saída
Persegue-me.
Estou no segundo
Antes
Da palavra,
Estou no prenúncio
Desse grito
Que me grita
Inteira
E pelo meio
Me devora
Numa solicitude calma.
Estou no pretérito
No ontem
Da palavra.
Estou no âmago
Dessa palavra que me ama
De um amor sem saída
Que se vive, fere
A minha liberdade.
A palavra me ama
Com ganas
De morte.
Sandra Fonseca In: A solidão das mulheres poetas
Imagem: internet
19 de junho de 2011
FENÔMENO

Que voz, que vento
Maresia, pensamento
Que mesmo é isso
Encanto
Mão de ferro na garganta
Brilho de cristal
Na escuridão.
Que pedra rara
Lâmina que roça o pulso
O pulo do gato
Língua de trapo.
Revolve o fundo
A s entranhas, a carne
O sopro no cabelo
Da memória distante
O dolorido desse instante
Um portento, um gigante
Avassalador encanto
Um verso arde
No canto do olho
Sandra Fonseca
*Imagem da internet
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